Sobre literatura na internet e possibilidades narrativas

Publicado originalmente em 09 de junho de 2013, “Sobre literatura na internet e possibilidades narrativas” foi o anúncio da conclusão de As Nuvens Púrpuras, novela autoficcional cujo primeiro capítulo havia sido publicado em meados do ano anterior aqui mesmo, no blog. Foram apenas dezesseis compartilhamentos, um número ainda assim maior que o número de visitantes do finado The B Box em um mês inteiro. Pode ser considerado o lançamento oficial do texto, o primeiro de longo fôlego desde o livro-reportagem-ensaio Dentro da Pele, de 2011. Em 2015, As Nuvens Púrpuras foi adaptado para o teatro e pode estrear em 2016.

What The Water Gave Me

Literatura Frida Kahlo publicada na internet, As Nuvens Púrpuras traz personagem obcecado com a morte para falar sobre arte, sonhos e o ato de escrever

“Escrever é o mais próximo que o ser humano pode chegar daquilo que chamamos de liberdade”. A frase é um trecho de um texto publicado aqui em janeiro com o título “Expediente”, espécie de miniconto sobre um homem insatisfeito com os rumos de sua vida profissional. O texto, por sua vez, é parte de As Nuvens Púrpuras, projeto de literatura na internet cujo último capítulo foi publicado na semana que passou.

A primeira postagem de As Nuvens Púrpuras ocorreu em setembro de 2012, e, a partir daí, as desventuras do personagem obcecado com a morte foram contadas por meio de fragmentos, vários deles formando blocos que recebiam títulos com números de um a cinquenta e um. Como autor, o conjunto me orgulha pelo desafio da escrita e pelos experimentos narrativos e emocionais a que propus meu papel como contador de histórias.

Não inventei a roda. Não há nada de definitivamente original em As Nuvens Púrpuras, exceto aquilo que é intrínseco a mim. Ainda assim me contenta. É uma história sobre o ato de escrever, sobre a dificuldade, técnica, inclusive, de escrever, sobre a necessidade e a liberdade de escrever, sobre sonhos e sobre a dor da impermanência da vida quando se é jovem demais para lidar com isso. Sobre a morte, sobre sexo, sobre Deus e sobre o amor, claro.

Escrevê-la me fez pensar sobre os caminhos (diversos) da narrativa, sobretudo num ponto em que parecemos cada vez mais propensos a uma mudança na maneira como se consome literatura (há livros que nascem na internet para tempos depois chegarem ao mercado impressos; livros para tablet e outros leitores digitais; a marcante presença dos serviços de autopublicação et cetera) e nos incríveis exercícios que se pode fazer com a palavra.

No último capítulo, uso o narrador/personagem para dizer que

A minha literatura (é uma pretensão enorme referir-me assim a essas palavras rabiscadas que se desgarram de mim de maneira tão pungente? Se é, lamento ferir a castidade dos conceitos de um alguém. Mas é tão minha a ponto que eu a defino) é Frida Kahlo transposta para seus registros visuais impossíveis de expressar em palavras sem perder parte da essência. Frida está lá, de modo que estou aqui, e suas projeções suspensas atadas a cordões umbilicais são reais apenas em sua cabeça.

e que

Nada me parece tão atraente quanto cobrir-me com estes lençóis e esperar pelo dia de amanhã. Ninguém sabe se ele vem, como vem… Mas de certo enquanto espero estarei aqui investigando pensamentos que me surgem com frequência sem aviso algum. Investigando a própria escrita e essa tendência de me retratar nesses registros, meio Clarice Lispector meio Frida Kahlo, e me perguntando se um dia saberão que esta é a única maneira que eu tenho de fazê-lo, ou, se não a única, pelo menos a mais legítima.

Gostaria de compartilhar essas experiências com quem estiver disposto a encará-las. Se a resposta for sim, meus sinceros votos: façam uma boa leitura.

As Nuvens Púrpuras, por Felipe Lima

Ilustração: What The Water Gave Me, Frida Kahlo

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