Sair do armário ainda é preciso?

Sem medo de entrar numa polêmica gigantesca a respeito das militâncias e suas abordagens, escrevi “Sair do armário ainda é preciso?” com naturalidade, tentando ser compreensivo com a importância das portas arrombadas dos armários dos famosos, mas também falando sobre independência diante de imposições de regras e códigos de conduta. Publicado originalmente em 18 de fevereiro de 2014, foi um dos primeiros textos sobre comportamento do Les Feuilles, com mais de 100 compartilhamentos nas redes sociais, que me estimularam a falar sobre temais mais próximos, de forma mais pessoal. A postagem também me estimulou a explorar cada vez mais hiperlinks, indicando leituras complementares para temas complexos.

Um ex-chefe foi o responsável por me ensinar a lidar com as diversidades, sexuais inclusive, que costumam gerar polêmica. Ele dizia: Desmistifique

Na último dia 14 de fevereiro, a atriz Ellen Page, indicada ao Oscar por Juno, participou de uma conferência da Human Rights Campaing Foundation, uma associação em defesa da causa LGBT nos EUA.

Durante uma fala emocionada de pouco mais de oito minutos, Ellen discursou sobre os duros padrões a que os jovens são submetidos e sobre as dores e a coragem necessária para fugir desses padrões. Aproveitou para informar a todos que estava lá porque é gay, momento em que foi aplaudida por longos trinta e cinco segundos.

Mais cedo, um amigo me mandou uma mensagem entusiasmada perguntando se eu havia visto o vídeo. Respondi que sim, embora sem o mesmo entusiasmo. Não há como negar que atitudes como a de Ellen sejam admiradas, e, talvez, até necessárias, num mundo onde milhares de homens e mulheres sofrem diversos tipos de abuso apenas por conta de suas condições e\ou preferências sexuais.

Onde jovens apanham nas ruas, são ridicularizados nas escolas, suicidam-se. Onde travestis e trânsgeneros, quando não são mortos com requintes de crueldade, mal podem encontrar um emprego decente que lhes permita outra vida que não uma existência marginal. E onde, claro, a mídia recomenda que essas pessoas evitem frequentar lugares abertos, a fim de que não sofram homofobia.

Portanto, é realmente compreensível que Ellen sinta que tenha uma responsabilidade social com a declaração, afinal, ela é uma pessoa pública, jovens se inspiram nela e esperam atitudes das quais possam se orgulhar. É uma ação política, pessoal, comercial até, talvez, embora creia que não.

Particularmente, sempre tive problemas com a expressão “assumir ser gay”. “Sair do armário” me soa ainda pior. São expressões carregadas de rancor e de um peso que não condizem com a natureza diversa da sexualidade humana.

Comentava com um amigo outro dia: rótulos como hétero e homossexualidade não existiam na antiguidade. É coisa da era moderna, historicamente falando. E mais servem para segregar do que para compreender.

Estudiosos da sexualidade sabem o quão ultrapassado se tornou esse tipo de interesse e propõem o exercício de uma sexualidade sem rótulos.

Discurso de Ellen Page na Human Rights Campaing Foundation

A verdade é que um ex-chefe foi o responsável por me ensinar a lidar com as diversidades, sexuais inclusive, que costumam gerar polêmica. Ele dizia, com humor bastante peculiar: Desmistifique. Tire a importância.

A partir de então essa palavra se tornou mágica para mim. Desmistifique é o que eu penso quando vejo comoção por conta da exibição de um beijo gay em horário nobre na TV brasileira. Desmistifique, é o que eu digo ao meu amigo diante da sua excitação por Ellen Page ser feliz em se relacionar sexual ou amorosamente com mulheres.

Enquanto ouço muitos dizerem que gostariam de ver mais pessoas agindo como Ellen, eu digo que realmente gostaria que isso não fosse mais necessário.

Exatamente da mesma forma que não é necessário um comunicado oficial de heterossexualidade; da mesma forma que ninguém pressiona um heterossexual nesse sentido.

À parte a onda de horror e desrespeito generalizada, não há diferenças significativas em ter sexo e compartilhar a vida com alguém do mesmo gênero.

Talvez alguns não saibam, mas a também atriz Jodie Foster, duas vezes ganhadora do Oscar, foi muitas vezes criticada por não “revelar-se” gay. Jodie teve uma relação com uma mulher por cerca de 20 anos, tiveram dois filhos juntas, e, ainda assim, revistas e militância queriam que ela “saísse do armário” e fizesse um favor à causa.

Então, em 2013, quando foi homenageada pela Associação de Imprensa Estrangeira de Hollywood, que entrega anualmente os prêmios Globo de Ouro, Jodie fez um discurso claro em que assumiu com todas as letras que era… solteira.

“Sei que muitos esperavam que eu saísse do armário aqui hoje, mas eu fiz isso anos atrás, quando uma garota frágil escolhia se abrir com amigos confiáveis, e com a família, e depois, gradualmente, orgulhosamente, com todo mundo que ela realmente conheceu. Mas agora fui informada que aparentemente se espera que toda celebridade dê detalhes de sua vida privada em entrevistas coletivas”, resumiu.

Depois do discurso houve quem chamasse Foster de covarde por não ser explícita e usar as palavras gay, lésbica ou homossexual. Quem ignorasse sua declaração de amor à ex-esposa, aos filhos e aos “mesmos rostos de sempre, anônimos” que estavam ao seu lado dia após dia, seu agradecimento e a manifestação de amor profundo pela mãe. Ingredientes que, tão ou mais que o exercício de sua sexualidade, a fazem ser Jodie Foster.

Foram minoria, ainda bem. Ainda bem que a sociedade não transformou esse preconceito às avessas em regra. Não é uma ditadura, embora, às vezes, possa parecer que seja.

Transcrição, em inglês, do discurso de Jodie Foster na 70ª cerimônia de entrega dos Globos de Ouro

Não à toa, Jodie falou de privacidade. Talvez esse tenha sido o principal tema de seu discurso, até. Absolutamente compreensível para uma pessoa que vive há 47 anos diante das câmeras e tenha sido exposta a todo tipo de especulação.

Mas absolutamente compreensível também para qualquer pessoa que não queira fazer de um aspecto particular de sua vida uma bandeira em favor de qualquer coisa – o que não nos tira o dever de lutar por igualdade e respeito, acima de tudo. Nem sempre se trata de mentir por omissão.

Dito isto, depois de todos os boatos e comentários maldosos, pessoas me inquirindo e esperando por uma declaração, aproveito para dizer, honestamente e orgulhosamente, a quem interessar possa, que eu sou… Artista.

Leia também: Quem rotula nossa sexualidade?

 

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