Sobre poções mágicas e bandas imaginárias

Quase como a saga de um jovem adolescente para descobrir sua banda predileta, “Sobre poções mágicas e bandas imaginárias” é uma tentativa de resenhar os discos lançados pela banda sueca Little Dragon de forma mais ensaística do que uma crítica comum provavelmente faria. Publicado originalmente em 20 de junho de 2014, o texto inicia uma fase de maior experimentação com a narrativa, nadando na contramão da linha editorial que a plataforma sugere. A Obvious não estimula a publicação de contos, poesias e crônicas, tampouco aprova um modo narrativo que possam considerar “pessoal demais”. O formato diário de memórias provavelmente não agradou aos editores, que evitam destacar textos fora das normas, mas talvez tenham ajudado outras dez pessoas a querer compartilhar o link no Facebook: parece feito pequeno, mas é algo inédito na trajetória do The B Box, por exemplo.
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Quando era adolescente eu tinha inveja dos meus colegas e conhecidos que compravam CD’s e usavam camisetas de suas bandas e artistas prediletos. Alguns até iam a shows e se descabelavam atrás de seus ídolos. Ao contrário de todos eles, entretanto, eu não tinha uma banda preferida, apesar de música ser uma das minhas primeiras e mais fortes memórias daquela época.

Me considero afortunado, aliás. Comecei com bastante MPB: Chico Buarque, Adriana Calcanhotto, Marisa Monte, Milton Nascimento, Elis Regina, Caetano Veloso, Marina Lima. Na estante repleta de álbuns da casa ao lado, além de heróis da música nacional descobri também The Cranberries e o disco Stripped, de uma moça algo esquisita de nome Christina Aguilera, da qual eu lembrava ter visto flashes de um show pela TV. Do show eu lembrava pouco: certo exagero vocal, mas alguma substância. Xtina veio a se tornar um grande amor, a partir de então.

Meus irmãos, todos mais velhos, também amavam música (quem não, além de um ex-chefe de personalidade excêntrica?) e sempre tiveram o hábito de fazer a casa vibrar com as ondas sonoras. E foi assim, meio à revelia, que conheci The Smiths, Nirvana, U2, Sade, Oasis, Metallica, Iron Maiden, Black Sabbath.

Nessa época também era possível descobrir coisas como o Morcheeba nas trilhas sonoras das novelas do Manoel Carlos

Fiz depois outras descobertas, com a ajuda do rádio, da TV e dos colegas. Sandy e Júnior, Fat Family, KLB, Thalia, Shakira, Ana Carolina, Destiny’s Child. Toda uma gama de aventuras sonoras chegaram até mim com os mais diversos resultados. Algumas foram tão passageiras como alguém que entra na condução e salta no ponto seguinte; outras, duradouras como amor de mãe.

Apesar de todos os achados e de inevitáveis preferências, eu continuava sem uma banda para chamar de predileta. Para berrar o refrão com tanta convicção como se eu mesmo o tivesse escrito. Pra sonhar com a vista do palco e os cabelos em pé em uma futura apresentação. Então eu criei a minha própria banda, uma banda imaginária, o James, um delírio que, odeio admitir, me persegue até hoje. Talvez o James seja minha banda predileta, mas ela só existe em minha cabeça.

Foi só no raiar da entrada da vida adulta que vislumbrei o que seria ter uma banda favorita, ao conhecer uma coletânea abrangente do trabalho do Morcheeba e experimentar verdadeiras e até então inéditas viagens ao som do famoso trio inglês de trip-hop. Achei que o Morcheeba seria, enfim, minha esperada e muito honrosa estampa afirmativa numa camiseta. E foi, durante algum tempo, na nobre companhia de Amy Winehouse. Fiz muitos “shows” usando descaradamente o repertório de ambos.

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Contudo, foi a imagem de uma menininha de olhos tristes que me deixou a primeira impressão de que eu estava equivocado. Tratava-se do primeiro álbum do Little Dragon, autointitulado, uma das saborosas descobertas do verão de 2012, muito embora tenha sido lançado cinco anos antes, em 2007.

A receita era refrescante: uma pitada de jazz acústico, boa dose de eletrônica, uma esquisitice gostosa em cada uma das 12 faixas, levadas por vocais amplos, únicos e não menos que intrigantes vindos de uma jovem sueca de origem oriental influenciada pela música negra norte-americana.

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No álbum seguinte, Machine Dreams, de 2009, encorajados pela boa estreia, o quarteto formado nos anos 90 em Gotemburgo, na Suécia, veio com mais baladas e mais batidas eletrônicas, acrescentando na poção mágica um componente que talvez tenha passado despercebido no trabalho anterior: pop.

Pop, mas ainda envolto na mesma esfera genuína e intrínseca criada no álbum antecedente. Pareciam absorver de suas referências para dissecar as próprias excentricidades, exatamente o como penso que uma banda madura deve fazer.

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A excelência nessa delicada mistura, no entanto, apareceu com ainda mais força em Ritual Union, o álbum que apresentou a banda a uma nova leva de fãs, em grande parte por conta das florescentes colaborações com nomes como Damon Albarn e o Gorillaz, SBTRKT, Raphael Saadiq e Big Boi, do Outkast, todos encantados pela feitiçaria do grupo.

Ritual Union tornou evidente que o Little Dragon produzia um som que muito embora pudesse evocar clássicos e contemporâneos como Ladytron, Portishead, Kate Bush, Massive Atack e o próprio Morcheeba, os colocava numa categoria particular, com suas produções embebidas em tamanhas e tão bem trabalhadas influências e criações próprias que tornava difícil para qualquer um catalogá-los. Eletrônico? Neo-soul?

Na tentativa de achar uma embalagem que os embrulhasse, houve quem apelasse até para r&b extraterrestre.

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Então, como se brincando com toda essa curiosidade e atenção, a banda resolveu batizar seu mais novo álbum de Nabuma Rubberband. No material de divulgação, eles explicam: Nabuma Rubberband pode ser qualquer coisa. O que você quiser. Algo muito bom, muito ruim, algo excitante, suspeitoso, colorido, algo… bem, cole aqui a sua etiqueta. Imprima seu rótulo. Crie seu conceito.

Nós apenas criamos essas músicas no mesmo esquema em que começamos nossa carreira, num estúdio repleto de bugingangas (muitas delas criam sons maravilhosos que incluímos nas nossas músicas e fazem vocês ficarem meio enlouquecidos se perguntando “de onde vem isso?”), dentro de um apartamento em que gastamos um bom tempo ouvindo de tudo, inclusive alguns LP’s da Sade e da Janet Jackson. Esperamos que vocês se divirtam, construindo teorias ou se esbaldando num dos shows da nossa agenda cada dia mais cheia.

Nabuma Rubberband é o Little Dragon em mais plena forma. Robusto, mas não pedante, acessível, mas sofisticado. Todos os ingredientes que sustentam a banda estão aqui: os sintetizadores revoltos e os imprevistos sonoros, a cativante construção melódica, o lirismo inconclusivo, os inusitados caminhos vocais de Yukimi Nagano (com graves cada vez mais matadores), as variações de humor – embora o tom aqui, no geral, aponte para matizes mais escuras.

Tudo melhorado com precisão clínica para não deixar escapar a atmosfera espacial, o desvanecimento, a elegância e o brilho de sua discografia. À receita eles acrescentam alguma instrumentação orgânica, elemento raramente evidente em suas produções e que recebe espaço significativo em Pretty Girls, na deliciosa faixa título e na suave Pink Cloud.

Além da participação da Orquestra Sinfônica de Gotemburgo, pela primeira vez o grupo abre as portas para que outros profissionais trabalhem na composição e pós produção de algumas faixas. Dave, do grupo norte-americano de hip-hop De La Soul, co-escreveu a brutal e febril faixa de abertura, Mirror, e a não menos impressionante Killing Me – essa última co-produzida pelo multi-instrumentista Robin Hannibal. Ambas podem facilmente ser apontadas como pontos altos do disco, mas há muito mais para ser admirado nesse que já um dos mais competentes álbuns desse fantasioso dragãozinho.

Abaixo, alguns dos pratos principais do cardápio de poções mágicas do Little Dragon:

Twice

e Constant Surprises, de Little Dragon

Blinking Pigs

e Runabout, de Machine Dreams

Ritual Union,

Nightlight,

Brush The Heat,

Little Man

e Crystalfilm, de Ritual Union

Paris,

Killing Me,

Underbart e todo o Nabuma Rubberband

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