Por que não aceitar o presente?

CENA 1: EXTERNA, DIA

25 de janeiro. Aniversário de São Paulo. Ruas vazias (para o padrão de uma das cidades mais populosas do mundo, obviamente).

Consolação, esquina com a Caio Prado. Eu, vulgo O Pernalta, aguardo na faixa de pedestres.

Pela primeira vez, arrisco-me a “fazer farol”, como os paulistas chamam a performance no semáforo, sozinho, na selva de pedra, depois de estrear ao lado da Palhaça Severina nos semáforos de Itu, no interior paulista.

O sinal fecha. Hora do espetáculo:

– Senhoras e senhores! Muito bem-vindos ao maior espetáculo de equilíbrio do mundo (dou uma pirueta)! Comigo: Felipe Lima, a rainha das pernas de pau!

YEY!

– Mentira, gente! – e abro o sorriso mais lindo do mundo – Tem espetáculo não, eu só queria oferecer esse presente pra vocês mesmo, e vou ficar muito feliz caso vocês aceitem!

Oba, janelas abertas! Abaixo e pergunto:

– Olá, queridx, posso te oferecer um presente?

– Oh, amigo, fica pra outro dia, tá? Eu não tenho nada pra te dar.

– Mas EU TENHO algo pra te dar!

Levanto e grito bem alto:

– Não pensem que por que não podem ou não querem colaborar, eu não posso ser generoso com vocês! Eu posso, sim!

Abaixo novamente e insisto:

– Por favor (sorriso mais lindo do mundo). É simples, mas é de coração.

A cena se repete dezenas de vezes. Geralmente, após alguma insistência, as pessoas aceitam o presente. Vibro. Às vezes elas até colaboram! Agradeço.

Opa! Olha umas moedinhas aqui! Opa, dois reais! Opa, mais dois! Eba, mais cinco! OPA! CINQUENTA (porque é aniversário de SP, a moça diz)! É a segunda vez que isso ocorre na minha curta trajetória nas ruas. Seria um bom sinal?

– Obrigado pela generosidade, queridas. Vão com Deus!

É o que digo a quase todos. Espero que levem numa boa em caso de ceticismo.

CENA 2: FIM DO DIA, INTERNA, CASA

Vou ao Facebook:

Existe sim amor em SP! ❤

CENA 3: EXTERNA, DIA

26 de janeiro, Consolação com Caio Prado, 14h. O sinal fechou:

Senhoras e senhores!

Mas o vidro fechou.

A cara fechou.

O coração fechou.

Grito. Berro. Esperneio. Só o que vejo é horror.

E mais horror.

– Isso é tão feio! – digo, engasgando.

Choro um pouquinho. Peço forças. As horas passam e minhas pernas doem muito. Ainda restam muitas frases. As pessoas simplesmente não aceitam o presente. Apelo:

– Moçx, gastei cinco horas da minha vida hoje cortando e dobrando cada um desses papeizinhos, apenas porque eu queria presentear as pessoas na rua, como uma oferta de amor. Por que não aceitar o presente?

Silêncio.

– Você costuma rejeitar presentes das outras pessoas?

Silêncio.

– Você não pode sequer baixar o vidro do carro pra falar comigo?

Mas elx não me olha. Elxs não me veem.

O sinal continua fechado, mas o carro se move, ainda assim. Como se dissesse: “Ei, coisinha, não me encoste”.

– Tudo bem, eu não posso obrigá-lo. Mas posso desejar que você vá em paz. E que em 2016 você possa ser uma pessoa melhor, viu? Tchau!

Eles estão desesperados e não sabem.

Me irrito. Ultrapassei meu limite enquanto performer?

A cena se repete. Uma, duas. Dezenas de vezes.

Abro os braços, levanto aos céus. Olho para o azul imenso e grito um grito que quase não sai:

Meu Deus, me leva! Por favor! Não quero viver num mundo assim. Por favor! Eu me sinto tão só…

(Eu não estava interpretando. Foi real, muito real, dramático que sou. Mas se estivesse ganharia uma indicação ao Oscar, deixando o prêmio da academia mais diverso)

Olho pra baixo. olho pra frente. Sinal fechado.

Sabe, confidencio a uma amiga mais tarde, não é o fato das pessoas não colaborarem que me incomoda. Dinheiro é bem-vindo e necessário, mas se segurança financeira fosse o mais importante para mim nesse momento eu não estaria testando meus limites de rejeição e vulnerabilidade nas ruas, mas provavelmente gerenciando um hostel, ou trabalhando com assessoria de imprensa – coisas que já fiz muito bem, obrigado, dentre tantas outras que já me renderam mais dinheiro e mais prestígio.

O que me incomoda mesmo é quando elas não aceitam o presente. Nada parece me entristecer mais. Semiperplexo, só consigo perguntar a elas, insistentente: mas por quê? Por que não?

Ombros levantam. Cabeças abanam. Nem elas sabem.

Ok. Não posso obrigar ninguém a nada.

Não posso obrigar ninguém a nada, repito, como um mantra.

Não posso…

Posso sim!

CENA 4: EXTERNA, DIA, MINUTOS DEPOIS

Meu Deus! Não me leve ainda! E obrigado, desde já. Por tudo.

Sinal vermelho: It’s showtime!

– Gente, mas que casal lindo! Não sei de qual dos dois tenho mais inveja (eles sorriem gentis). Posso oferecer um presente pra vocês? É só uma frase, mas não subestimem o poder de uma frase! É simples, mas de coração.

Ambos sacodem a cabeça negativamente. Ela até faz biquinho.

– Valeu, amigão. Bom trabalho pra você.

– Tem certeza?

– Aham.

– Mas vai levar mesmo assim! – grito entusiasmado, e arremesso o papelzinho dobrado dentro do carro.

Saio sem olhar pra trás e com um sorriso do tamanho do mundo no rosto.

– Quem mais quer, gente? É só dizer que sim!

E abro os braços, e me lanço no desconhecido.

– E você, meu anjo, aceita meu presente? – pergunto, com a cara colada no vidro coberto pela película escura. – Acho que não, né? Mas vai levar mesmo assim, viu? – e encaixo o papel na dobradiça superior da porta. – Quando você abrir a porta o papel vai cair, tá? Se não gostar compartilha com alguém mesmo assim! Às vezes não serve pra você mas serve pra outra pessoa! Vai com Deus!

E a cena se repete… Uma, duas…

E a palavra “artivismo” parece nunca definir tão bem o meu trabalho. Mas poderiam chamar de terrorismo poético também, nesse caso, se quisessem.

Com custo, as frases acabam. Exausto, volto ao mesmo bar do dia anterior. Compro uma garrafa d’água grande, em vez da cerveja de ontem. E uma linguiça. Só comi amendoim o dia inteiro. Pago contando as moedinhas da caixa. Ganho um desconto do atendente. Obrigado, querido.

CENA 5: INTERNA, NOITE, CASA

Volto ao Facebook. “Escreva aqui o que você está pensando”.

Digito na caixa:

Mas tem dias que não existe amor em SP MESMO. 😦

Apago. Não publico nada.

– Você não vai mudar o mundo! Você vai ficar é louco. – me dizem os amigos.

– Eu não sou um herói! Eu só quero impactar as pessoas. Mexer com elas, provocá-las. Elas que mudem o mundo, se quiserem. Elas podem.

– Você tem que aprender a fazer o swing! É disso que o povo gosta, de espetáculo! Você não precisa falar com ninguém. Fica de boa na sua, põe um fone de ouvido e depois só passa recolhendo o money da galera que quiser colaborar.

É…

Mas eu não quero ficar girando aquelas correntes. Não se trata de virtuosismo, da atenção pela imagem em movimento. Eu não estou fazendo um número ou um espetáculo e eu nem mesmo sou tão apaixonado assim pelas artes circenses para justificar esse mergulho mais profundo.

A perna de pau é apenas um meio para que eu possa ser visto com mais facilidade. Um instrumento para dar visibilidade, para chamar atenção (e para, possivelmente, estourar as minhas veias e formar varizes).

Assim é com o figurino. Assim é com a maquiagem, cada dia menos pior (obrigado por isso também, Severina). Prático e objetivo.

Eu sou as minhas palavras.

Não somente elas, é verdade, mas sobretudo elas.

Não me entusiasma, no momento, a ideia de ir para as ruas fazer esse tipo de arte. Malabares, fogo, contorcionismo, graça! Tudo lindo. Tudo vivo. Mas meu buraco, com todo respeito à atividade dos meus colegas, é mais embaixo.

Vou pra cama. Choro um pouco. Oro um pouco. Tanta coisa passa pela minha cabeça. O que eu estou fazendo da minha vida, afinal?

Durmo mal.

CENA FINAL: INTERNA, DIA, CENTRO CULTURAL DA JUVENTUDE

27 de janeiro. Vida que segue!

Me inscrevo para aulas de tecido e trapézio. Não tem mais vaga. Lista de espera. Ok.

Dirijo-me à biblioteca do CCJ para concluir o roteiro da segunda edição do podcast Palavras Só Mudam Pessoas. Meu Deus, já, já isso precisa estar no ar. Ainda tenho muito o que fazer.

Nossa, há dias que não acesso o e-mail do projeto (palavrassomudampessoas@gmail.com). Ah, mas nunca tem nada lá mesmo.

Olha, tem um e-mail!

De dois dias atrás!

Gente, mas que internet lenta.

Abriu.

Ai, meu Deus.

Ai, meu Deus.

Ai.

Menina, para. Menina, não me arrasa, não!

Levanto. Saio da biblioteca e caminho até a sacada do enorme edifício. Olho pra cidade repleta de casas, e carros e pessoas e sons e vidas. E chove. E choro. Choro muito. Estou em prantos. Felipe, se controle, as pessoas vão vir perguntar se você está bem. Felipe, por favor, que escândalo é esse? Felipe! Ok. Recomponho-me. Volto e sento à mesa. Choro discretamente enquanto digito uma resposta. Não sei o que dizer, na verdade, além de obrigado. Muito, muito obrigado.

***

Bom dia,Felipe. Como vai você?espero que muito bem.
Me chamo NEGRA MARAVILHOSA (este é o e-mail do meu irmão que eu uso no trabalho para me comunicar com o mundo),ontem nos encontramos casualmente andando na Paulista,você com longas pernas de pau e rosto pintado e eu com um grupo de amigos dando uma volta e conhecendo coisas. Eu sou a gordinha de longas tranças que você parou e disse “eu adorei a sua energia!”,disse isso com tanta sinceridade que por alguns momentos me senti encabulada com tamanho elogio. Obrigada.
Como você pode perceber,é muito cedo ainda e eu estou no meu trabalho,sentada na minha mesa e pensando no quanto estou cansada da minha rotina. Eu só não contava que com um pequeno pedaço de papel que encontrei em meu bolso agora pela manhã com os dizeres: ” Quando as palavras não são tão dignas quanto o silêncio,é melhor calar e esperar” de Eduardo Galeano e o endereço do seu blog. O que eu não te disse,Felipe, é que ontem no momento em que você me entregou esse pequeno papel eu estava brigada com a pessoa que eu mais amo nesse mundo (um moça chamada OUTRA LACRADORA,uma negra linda que roubou o meu coração) e que você me tirou um sorriso espontâneo com a sua simplicidade e que esse papelzinho fez com que eu tomasse coragem e fosse resolver o problema. O que eu não te disse,Felipe, é que eu também gostei muito da sua energia. Eu não te disse que você é uma pessoa iluminada e que a sua atitude,ali,no meio de pessoas que você não conhece é uma das coisas mais bonitas que eu já vi. Então,em meu nome e em nome de todas as outras pessoas que você alegrou durante o tempo que você ficou lá,com aquelas pernas de pau e sorrindo eu quero dizer: obrigada!.
Obrigada por ser você.
Tenha um bom dia e uma vida linda;
Obs: Te procurei no facebook e não encontrei,se puder (e quiser) me manda o link do seu nome por lá. Beijos 😘

***

Observação 1: A identidade das envolvidas foi preservada, a fim de evitar qualquer exposição indevida.

Observação 2: A vida, é mesmo, uma coisa, assim, impressionante. Parece uma montanha-russa.

Observação 3: A segunda edição do podcast Palavras Só Mudam Pessoas estará disponível aqui mesmo nesse blog em 1º de fevereiro. Vamos falar sobre desapego. E vai ser ainda melhor que o primeiro. 😉

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