Dançomania

Uma história curiosa, uma conversa com amigos numa cidade estrangeira: inspiração para uma dança estranha, para um texto novo. Dançomania é simples, e sua simplicidade me encanta. Publicado originalmente em 22 de agosto de 2014, é, particularmente, um dos meus textos prediletos enquanto autor durante a trajetória no Les Feuilles. Como bônus (ou ônus) gravei um vídeo ao som de um hit pop, que serviria para acompanhar o texto, mas de última hora, fiquei receoso, substituindo-o por uma imagem da dança de Elaine, personagem da sitcom Seinfeld. Bobagem pura: há um certo charme na minha dança de movimentos espontâneos. Quase tão espontâneos quanto as palavras que seguem.

Há quase quinhentos anos, uma mulher despertou de seu sono numa manhã (quase) como todas as outras em Estrasburgo, no leste francês.

Em determinado momento, entretanto, em meio a atividades rotineiras, por razões que a razão desconhece, Frau Troffea permitiu que seus mais diversos sentimentos se manifestassem por completo por meio de movimentos corpóreos livres e ininterruptos.

Dançou.

E saiu às ruas sacudindo o corpo em estado de transe, numa estranha espécie de contemplação interna poucas vezes vista. Sua loucura, assim incontida, ultrapassou não só as barreiras da própria matéria e julgamento, mas chegou de forma hipnótica, contagiante e não renunciável ao outro.

A cada novo dia, novos loucos se juntavam a ela e dançavam, dançavam até que o corpo já não pudesse suportar.

Um, dois, vinte, quatrocentos outros dançarinos estranhos. E caíam mortos pelos cantos, completamente exauridos, vencidos pelas limitações do coração, do cérebro, sem que ninguém os demovesse da tarefa e os devolvesse à realidade.

Esse foi o mais famoso surto de dança que se tem notícia.

Vários médicos e estudiosos do comportamento humano debruçaram-se sobre o episódio de dançomania, a fim de tentar compreender o que havia despertado naquelas pessoas tamanha necessidade de saltar, mover-se, girar.

Um amigo me contou essa história, mas não lembro se chegou a contar também a que conclusão chegaram os sábios da ciência e dos mistérios.

Aqui comigo, reflito e crio a hipótese de que as pessoas dançam porque enquanto elas o fazem não há problema, miséria ou tristeza que vença esse momento em que a alma respira tão liberta e inconsequente.

Enquanto dura o movimento, a impressão é de que o mundo deixa de existir, pelo menos da maneira como estamos acostumados, e se cria um universo absolutamente novo e pleno, suficiente. Talvez seja isso que tenha feito Frau dançar.

Se quem canta ora duas vezes, quem dança põe corpo, mente e espírito no mais perfeito equilíbrio entre a natureza humana e a natureza divina que existe em cada um de nós.

É por isso que quem dança, assim como quem ora, ganha mais se o faz de maneira como se ninguém o assistisse.

Se as epidemias vão nos matar, que ao menos sejam como essa, que nos põe diante da morte mas também da salvação.

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