Eu espero que essa frase possa salvar meu casamento

“Eu espero que essa frase possa salvar meu casamento”, diz a senhora no volante antes mesmo de escolher o papelzinho, entre inúmeros outros, na caixa que eu estendo a ela na brevidade da duração do sinal, tão vermelho quanto meus cabelos.

Após o expediente, ainda estou de peruca e vestido, no supermercado, convertendo em verduras, macarrão, creme dental e alguns outros produtos, os trocados que Palhaça Severina e eu acabamos de ganhar num semáforo em Salto, interior de São Paulo, quando uma mulher me aborda e diz, com um sorriso:

“Coloquei a frase no Facebook!”.

Não a reconheço, mas digo algo como: “Sério? Que bom!”, e penso em seguida: “Espero que ela tenha usado a hashtag”.

Severina me alerta que trata-se da mesma senhora do semáforo. Sim, A Mulher Com O Casamento Por Um Fio.

A frase era: “Quem é que quer flores depois de morto?”, de J.D. Salinger.

Particularmente, acho que é uma das palavras mais poderosas da caixinha que levo comigo por aí, pela complexidade simples de carregar tanto significado em tão poucas letras. “Que tapa na cara!”, foi o que disse a ela, mais cedo. “Espero que possa ser útil para você”.

Mas a verdade é que depois que as frases saem das minhas mãos, não posso me responsabilizar pelo que elas provocam na vida das pessoas. Inclusive nada.

Esse é um trabalho subjetivo por essência. Só posso desejar que haja algum impacto, e que esse efeito seja o que aquela pessoa precisa. Não necessariamente o que ela quer.

Talvez a intenção dela ao compartilhar a frase no Facebook seja dar uma cutucada no marido. Ou alertar outros casais para as pequenas coisas que deixamos morrer para só depois valorizá-las. Ou nenhuma dessas alternativas.

Compartilhar é sempre uma maneira de passar o presente adiante (mesmo sem usar a hashtag) e isso é algo que valorizo. Mas para que as palavras possam ter efeito sobre nós e sobre nossas vidas é preciso levá-las a uma prática que pode ser nova e intranquila.

Somente essa prática é capaz de provocar as transformações que almejamos, ou precisamos. Isso vale para salvar um casamento em crise. Vale para o fim da corrupção. Vale para abandonar aquilo que não nos serve mais, em toda e qualquer medida.

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Salve a si mesma, hoje, é o que penso daqui, do alto da minha poltrona de plástico frente ao computador. Poderia ter dito isso a ela, seguido de um abraço tão amoroso quanto o dos cães na foto.

Serve pra mim, também. Salve a si mesmo, hoje, Felipe.

E talvez sirva para alguém aí do outro lado, buscando solução para algo e depositando esperanças até num simples pedaço de papel, uma esperança pueril e bonita de que seja possível mudar coisas sobre às quais às vezes temos pouco ou nenhum controle.

O que sei não sabendo, e o que posso compartilhar com vocês querendo no fundo guardar para mim mesmo, tamanho meu desnorteio frente ao mundo, é que palavras são apenas palavras se não damos a elas um significado que as leve além do papel. Que possamos fazê-las mais, portanto. Que palavras sejam instrumento para as transformações das nossas práticas.

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