O tutano nos nossos ossos

Enquanto tento trazer a essas páginas algo que faça sentido, na sala, sentado numa confortável poltrona, minha mãe está na cozinha, preparando o jantar. Darcy, o cão, vaga pela casa, buscando um carinho aqui, uma atenção ali. Darcy quase não come ração, nem bebe água. Ele ainda pensa que é um cachorro de rua, mesmo tendo sido adotado há quase um ano, já. Ele ama a rua, e fica sempre muito ansioso e enérgico quando sai de casa, mas não gosta muito de andar de carro.

Minhas duas sobrinhas, a mais nova com nove e a outra com quatorze, estão no quarto assistindo a um filme possivelmente inadequado para a idade delas. Como controlar o que esses jovens fazem, o que eles veem hoje em dia? Desde muito cedo eles parecem saber das coisas desses tempos muito melhor que nós.

Meu irmão e a esposa estão na outra casinha, no mesmo lote, sem dúvida namorando. Eles não têm filhos ainda. Pode ser que nem queiram.

A irmã mais velha talvez esteja numa ligação com uma amiga ou na companhia do filho, outra deve estar em plantão ou talvez namorando. Outro, bem eu não sei. Também não sei o que meu pai pode estar fazendo, ou que a família dele pode estar fazendo. Espero que estejam todos bem.

O Lucas e o marido devem estar preparando o jantar também. A Fabi está com a filha, que veio do Rio para visitá-la durante o feriado. A Mari está cuidando do recém-nascido Théo, ao lado do marido. Talvez esteja um tanto impaciente com a mãe, mas a Dona Maria também não é flor que se cheire. O Cícero está curtindo o Carnaval no Rio ao lado de amigos, conhecidos e desconhecidos, unidos pela vontade e liberdade de fazer das ruas uma festa sem fim. Uma extensão de suas casas, de suas famílias, talvez.

O Felipe e a Carol provavelmente estão ocupados com o Valentim, que demanda tempo e esforço monstruoso dos dois. Ou talvez o Timtim já esteja na cama e agora os dois podem checar as redes sociais, ler um livro, conversar ou fumar um cigarro. O Felipe gosta de ver filmes também, então, talvez ela esteja dormindo e ele vendo algum filme cult que você jamais veria se não fosse na companhia dele.

A Isabela já deve ter colocado a Lara para dormir. E já deve estar dormindo também, porque amanhã ela acorda cedo e tem que dar conta de um dia inteiro na rua antes que possa voltar pra casa e passar algum tempo com a filha.

A Giselia deixou a Sara com o ex-marido nesse fim de semana, e está livre para curtir o novo namorado e apresentá-lo à família, com quem ela voltou a viver. A Thays deve estar sozinha em sua cidade natal, ouvindo sua coleção de música sertaneja. O Adriano com a vó, em casa, no Tocantins, ou quem sabe na beira do Rio, encarando a lua.

A Soraia Almeida deve estar debaixo de alguma marquise na rodoviária, dormindo ao lado do amigo. Talvez ela esteja com fome. Talvez não. Talvez ela esteja em abstinência. Provavelmente não. Talvez a família dela sofra pensando que é cruel demais vê-la jogada nas ruas. Talvez, sem ver, já nem sintam tanto.

Nessa noite uma mãe poderá perder o filho que não usava o cinto de segurança. E enquanto restar sobre essa terra, será obrigada a conviver com uma dor permanente.

Um pai poderá botar o filho para fora de casa. Dois irmãos poderão tatuar-se. Primos poderão desfazer um mal-entendido. Amigos podem afastar-se. Uma gata pode parir cinco gatinhos, e talvez um deles morra e você tenha que enterrar ao lado de uma amoreira.

Nesse momento, as famílias que eu conheço, e até mesmo aquelas sobre as quais não sei absolutamente nada, continuam a estabelecerem-se como um dos pilares fundamentais da nossa vida: mesmo quando elas não atendem aos nossos anseios. Mesmo quando elas fogem do padrão que podemos julgar mais adequado. Mesmo quando pais, mães, irmãos, filhos se vão, numa série de encontros e desencontros que é a marca perene da vida.

Podemos brincar às vezes, numa mesa com amigos, dizendo que na nossa família não existe ovelha branca. E podemos reclamar de como gostaríamos de ter nascido num ambiente diferente, com pessoas diferentes, mentes diferentes. Podemos até querer nos afastar, e ainda assim eles continuam estranhamente presentes. Num sonho. Ou numa memória que você gostaria de apagar, mas não consegue.

Família é uma presença contínua. Mesmo que você não tenha uma, ao menos nos moldes mais formais de se constituir uma família. Afinal, família pode ser quem você quiser, também. Se você não pode renegar a sua, ao menos pode ajudar a configurá-la. Escolher, selecionar, agregar, contribuir. Você, também, forma e transforma a sua família.

As famílias que eu conheço, e até aquelas sobre as quais não sei nada, podem estar juntas ou separadas, em algum lugar ou lugar nenhum.

Mas jamais deixarão de ser a força catalisadora de tudo aquilo que somos e vivemos, do tutano nos ossos ao mais íntimo de nossas almas.

Monólogo extraído da edição #3 do podcast Palavras Só Mudam Pessoas.

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