Manual para curar um coração partido

Publicado em 03 de janeiro de 2015, em meio a um vendaval de sentimentos perturbadores, “Manual para curar um coração partido” é um dos textos mais pessoais que já publiquei. Misto de terapia pela escrita e guia prático para escapar da tortura de um pé na bunda, o texto poderia ser considerado um fracasso comercial: os dados do Obvious não indicam nenhum compartilhamento nas redes sociais e sequer um comentário – a despeito da minha opinião de que é um dos textos mais facilmente relacionáveis em todo o meu catálogo de escritor. Na posição de alguém que fala quase sem autoridade, dicas como “pare de fuçar o perfil do ex” e “sofra mais” ganham argumentos baseados na minha experiência pessoal de tentativa de desapego. O ex continua sendo ex. Mas disse ter adorado o texto.

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Agora que você finalmente conseguiu arrancar da boca do seu ex-namorado que não há absolutamente nada que você possa fazer para tê-lo de volta, e sente que já chegou ao fundo do poço da dor de cotovelo, revirando os armários do banheiro e da cozinha em busca de comprimidos, chorando em posição fetal no chão e choramingando para todos os seus amigos, seus pais e até para os pais dele, é hora de lidar com o problema de forma razoável e madura e superar.

Você deixou que seu coração te guiasse até aqui. Tudo bem. Seguiu seus impulsos e fez tudo que acreditava ser possível fazer para resgatar aquela substância imaterial que envolve duas pessoas apaixonadas, como já dizia o Kings Of Convenience. Obviamente nada adiantou e você sofreu um bocado com isso. Ok. Tempo de agir.

Abaixo, você verá alguns passos para tentar sair da amargura, da solidão e da dor inefável de ter o coração partido. Não há qualquer garantia de sucesso e você pode continuar enfrentando a bad trip por um bom tempo (cinco anos, por exemplo), mas existe um consenso: passa. Em algum momento, passa. Até lá, tente combinar as dez dicas seguintes.

1. Sofra mais

Tá de brincadeira, né?, você deve estar se perguntando. Não, carx leitor(a). Falo sério. Sofra tudo. Ainda há lágrimas guardadas em algum espacinho milimétrico desses canais aí nos cantos dos olhos.

Você vai descobrir que há mais para sofrer, por exemplo, quando souber, por um amigo em comum, conhecido, parente ou, muito mais provável, pelo Facebook mesmo – já que mesmo sem segui-lo você continua visitando o perfil dele para buscar atualizações – que o ex já tem um novo namorado. E que agora é ele quem vai fazer as coisas que você não fez, as que você fez e as que você queria continuar fazendo.

Você vai adentrar um mundo inteiramente novo no terreno da dor psicológica, tentando descobrir tudo que pode a respeito do novo casal, e vai finalmente rugir alto, arremessar coisas contra as paredes e depois cair no chão com a respiração acelerada e o rosto transfigurado.

Esse geralmente é o momento mais difícil de aceitar para a parte que levou o pé na bunda, mas, claro, outras etapas do processo podem fazer você sofrer mais.

No meu caso, por exemplo, o pior momento foi, sem dúvida, realizar que eu havia sim perdido o acesso ao coração de alguém que foi e talvez sempre seja realmente especial na minha vida. Alguém com qualidades que se sobrepunham em muito aos defeitos, com sensibilidades e valores semelhantes aos meus. Alguém tão bonito por dentro quanto é por fora. Se você é o atual do meu ex e está lendo esse texto por alguma razão, saiba que você é um filho da puta sortudo por tê-lo ao seu lado.

É preciso ter consciência de que as etapas não devem ser puladas. Não aprendemos a ser melhores se não passarmos pelo sofrimento, me disse uma amiga. Jesus, o sofredor-mor, também ensinou a seus seguidores: Se a semente não morrer, não pode germinar.

Portanto, chore. Você vai ficar feliz quando as crises vierem apenas quatro vezes ao dia e talvez sorria quando se der conta disso. Se precisar de um empurrãozinho, a lista de canções no fim do artigo pode ajudar. 😉

2. Deixe de seguir atualizações e pare de visitar o perfil dele nas redes sociais

Você apenas precisa entender que toda vez que você entrar no perfil do ex no Facebook, no Instagram ou em qualquer outra rede social, você pisará em um terreno minado em que qualquer imagem, post, comentário, e até mesmo uma simples curtida, pode fazer explodir sua cabeça e tudo mais à sua volta.

Você talvez tenha pensado que não poderia ficar pior, mas sempre pode. Sei que disse no item anterior que é preciso sofrer tudo. E é. Mas lembre-se que é você quem decide o que é tudo. O meu tudo está descrito no primeiro parágrafo, mas pode ser que seu limite de autoflagelação não vá tão longe.

Você será capaz de perceber, e se sentirá num caminho de evolução, quando chegar o momento em que um resto ínfimo de dignidade, que você já nem lembrava mais existir, faz com que você tire o mouse de cima da barra de busca do Facebook (onde você já tinha digitado as três primeiras letras do nome do ex) e vá fazer qualquer outra coisa que seja mais produtiva, porque caso você não lembre, esse é o momento em que você já sofreu tudo e agora é hora de tomar atitudes o mais sensatas e maduras possíveis, certo? Muito bem.

Se você não consegue resolver uma situação, o tempo se encarregará de fazê-lo. Distanciamento, nesse caso, quase sempre ajuda. O que os olhos não vêem o coração não sente. Esse não é o clichê mais clichê de todos os tempos? Você saberá quando não fizer mais diferença o que seu ex está fazendo ou com quem está se relacionando no dia a dia.

3. Aceite

Clichê! Quantas vezes ouvimos em tom debochado a expressão “aceita que dói menos, querida”? Aí está uma grande verdade.

Por quê? O que fiz de errado? Posso consertar? Podia ter agido diferente? Como seria se eu tivesse agido diferente? Será que daqui há três anos ele volta pra mim de novo?

É comum buscarmos respostas para avaliar onde ou em que momento poderíamos ter evitado a tragédia, ou para saber se é possível reverter a situação de alguma forma.

Esse, entretanto, é o momento em que muito provavelmente você já fez essas perguntas a si mesmo mais de seiscentos e oitenta e nove vezes. Talvez tenha perguntado para mais cento e cinquenta e sete pessoas diferentes e nem você nem qualquer uma delas chegou a respostas satisfatórias, simplesmente por não haver nada que satisfaça um coração partido. Nenhuma justificativa, nenhuma análise. Nada.

Então, é o momento de entender que não temos respostas razoáveis para certas coisas na vida e aceitar esse fato pode significar que seu restabelecimento emocional se conclua mais rápido. Por que a paixão acaba? Por que Deus permite que homens bons sofram mesmo quando tentam fazer as coisas certas? Cara, apenas pare, por favor. Aceite que talvez, e apenas talvez, o tempo traga essas respostas.

Pessoas erram e tomam atitudes controversas o tempo inteiro. Não há santos e muitas vezes a responsabilidade pelo fim de uma relação é de ambas as partes. Noutras, um dos lados assume a obrigação de responder pelas ações próprias, e às vezes até pelas dos outros. É triste, mas é real, e se é esse o seu caso apenas aceite que você errou e agora tem que pagar o preço.

Quite a dívida com a dignidade possível. Não vai ser fácil, mas não saber lidar com o resultado dessas escolhas pode fazer com que o erro que lhe proporcionaria sabedoria, torne-se apenas o erro que selou o seu caixão.

Pode ser que não haja erro. As coisas simplesmente mudaram. O fato é que uma andorinha só não faz verão (clichê), muito menos namoram e são felizes cuidando de cinco andorinhazinhas e uma joaninha de estimação.

Veredito: aceite. E pule para o passo seguinte.

4. Cerque-se de bons amigos

Outro grande clichê.

Quando passei pelo processo de separação mais doloroso da minha vida até o momento, cheguei ao fundo do poço numa situação caótica: não tinha casa, nem emprego, e me sentia chateado e afastado de parte de pessoas importantes na minha vida. Temos vidas para tocar e o universo de cada um pode ter densas variações emocionais. Eles estavam longe, eu estava longe, e as conversas virtuais não eram suficientes. Estava chateado demais para pedir ajuda.

Então, um belo dia eu cansei de chorar sozinho no chão da cozinha e levei uma bolsa com documentos e necessaire para a casa de alguém que achei que pudesse evitar que eu cortasse os pulsos ou tomasse alguns muitos comprimidos, ou ainda que comprasse uma passagem para bater na porta da casa dos pais do ex, onde ele passava férias. Ou que fizesse qualquer outra besteira que poderia apenas piorar a situação.

A verdade é que nessas horas você nem precisa dizer muito. Se você bateu na porta de um verdadeiro amigo (ainda que você queira matá-lo às vezes), é provável que ele abra e perceba no mesmo instante que você precisa de cuidados. Leia-se: clichês e mais clichês que jamais te consolarão, alguma comida e muita paciência.

Talvez ele até durma na cama com você, e apenas traga seu colo mais pra perto para que você apoie a cabeça e molhe sua bermuda com mais alguns litros de água salgada. Se ele for um amigo magnífico, ele dormirá com você mais algumas noites e se esforçará para tornar o clima menos pesado. Provavelmente conseguirá.

Seus amigos também lhe dirão que aquela péssima ideia de arranjar alguém para fazer ciúmes no ex é realmente uma péssima ideia, e ainda lembrarão que esse tipo de comportamento não combina em nada com você.

Ficar sozinho pode ajudar no momento de uma avaliação mais profunda e serena. Mas no momento do desespero, quando tudo que você consegue enxergar é horror, não hesite em procurar ajuda. Você logo descobrirá que essa era a coisa certa a fazer e que as palavras que ouviu terão profundo impacto em empoderar suas avaliações.

5. Saia de casa

Bons amigos certamente se esforçarão para tirar você do casulo. Quatro paredes podem ser extremamente opressoras se estão diantes de sentimentos e pensamentos tão negativos quanto os que rondam um coração partido. Sua cabeça pode ser opressora diante do vasto oceano, que dirá diante de camadas de concreto?

Ceda aos convites para ir à praia, bares, shows, caminhadas etc. Vai fazer bem na maioria das vezes. Você verá os prédios, as pessoas, verá as engrenagens do mundo girando a todo vapor e realizará que o universo é bem maior que seu coração partido. Isso não estancará o sangue jorrando do seu peito aberto imediatamente, mas ajudará a compreender que sua desilusão não pode e não deve comprometer a ordem das coisas e sua atuação como parte disso.

6. Não se entregue às suas muletas

Sabemos que se quebrarmos a perna talvez precisemos de uma muleta. Corações partidos geralmente não se contentam com apenas uma e exigem mais. No auge da minha tristeza, eu tinha três: fast food, fast foda e doses elevadas de cannabis sativa. Em outras palavras, comia equivocada e demasiadamente, procurava conforto no sexo fácil e fumava incontáveis cigarrinhos suspeitos.

Recuso-me a ser hipócrita propositalmente: por um tempo realmente tive a sensação de que de alguma forma as muletas amenizavam meu sofrimento. Elas me faziam bem. Mas à medida que o corpo se recupera das fraturas, as muletas deixam de ser necessárias.

Isso na teoria: na prática, elas na verdade podem perder efeito rapidamente e provocar uma dependência cada vez maior. Na contramão, você então passa a se sentir mais impotente e começa a perceber que talvez você precise forçar o membro a voltar a funcionar por si só, e isso não é fácil, nem indolor.

Se você honestamente precisa de uma muleta, e Deus sabe como em momentos como esse nós somente precisamos da porra de uma muleta pelo amor de Deus, esforce-se para garantir uma que traga efeitos menos controversos.

6. Exercite-se

Essa é uma boa muleta. Exercícios físicos liberam hormônios associados à sensação de prazer e bem-estar. Algumas atividades também requerem concentração, o que significa que essa é uma boa oportunidade de trabalhar corpo e mente da melhor forma. Ver os resultados dessas atividades no seu corpo pode também impulsionar sua autoestima.

7. Seja paciente

Pode demorar até que você se sinta confiante na vida de novo. Seque as lágrimas e não se torture por não conseguir parar de chorar. Mas pense em talvez deixar de ouvir a seleção de músicas que embalou o antigo romance.

Ah, o tempo, senhor de todos os clichês. É ele quem tratará de resolver tudo quando você se der conta de que temos controle sobre muito pouco na vida. Apenas deixe-o levar quantos dias, meses e anos precisar.

8. Tenha fé

Desculpem, ateus. Acreditar que uma força maior rege todas as coisas ajuda a lidar com a frustração, embora também possa aumentar a sensação de impotência. De toda forma, faça as pazes com Deus. Não adianta mesmo responsabilizá-lo por nada.

Busque conforto na esperança que o equilíbrio espiritual pode proporcionar.

Se ainda assim você não está convencido, apenas reflita sobre as sábias palavras de Pascal e sua derradeira aposta.

9. Guarde as boas recordações

As brigas, as discussões, pequenos desentendimentos e chateações, aquela característica um tanto desagradável de sempre… às vezes deixamos esses momentos ganharem mais importância do que normalmente teriam.

Uma das minhas memórias mais recorrentes é de um fim de praia dentro de um ônibus lotado, o braço em volta da cintura do ex, segurando num apoio de metal enquanto mantinha o corpo dele bem perto do meu, com sua cabeça encostada no meu ombro. Posso quase lembrar dos pensamentos que tive durante a viagem e posso quase sentir a sintonia das nossas almas naquele momento.

Gosto de recordar dos momentos em que cozinhávamos juntos, ou quando conversávamos por horas sobre a vida e as pessoas e os sonhos. Dos momentos de grandes demonstrações de cuidado e afeto e sobretudo daqueles em que o sentimento se mostrava maior do que o físico, maior do que o natural e o compreensível. Dos momentos em que fazíamos preces juntos, das séries intermináveis de beijos de bom dia.

Lembrar dos bons momentos ajuda a reconhecer a importância do outro dentro da sua história e a ser grato pelo que tiveram a oportunidade de dividir. Facilita até uma possível amizade no futuro, depois que o turbilhão passar. Procure manter o respeito e busque lembrar por que você admira aquela pessoa. Pode parecer conflitante, mas no fim das contas, o sentido da palavra amor pode ser muito mais amplo do que podemos supor.

10. Invista no seu desenvolvimento

Faça aulas de dança, de pintura, de português; aprenda a tocar um instrumento, escreva, arrume as gavetas, toque algum projeto adiante: canalize sua energia em algo palpável, que possa lhe trazer uma sensação de entendimento, conquista ou evolução. Comprometer-se com um propósito trará um pouco mais de ordem aos pensamentos e calma ao coração.

Conclusão:

Não existe receita mágica, mas o fruto do trabalho árduo pode ser muito valoroso. Dê o primeiro passo e será impossível ficar parado.

BÔNUS: Breve história de amor em canções

Tom Jobim e Gal Costa, em Dindi

5 a Seco, em Pra Você Dar o Nome

A Great Big World e Christina Aguilera, em Say Something

Paloma Faith, em Only Love Can Hurt Like This

Sam Smith, em Lay Me Down

Lady Gaga, em Lush Life

Etta James, em I’d Rather Be Blind

Labrinth, em Jealous

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