O Pequeno Nikolai

Domingo, 20 de março de 2016

Que força se revela quando essas palavras saem de onde estão e vão parar no papel?

Eu sempre volto. Como se precisasse escrever a mim mesmo. Esses dias me disseram isso: “Escreva. É um processo importante: a escrita de si mesmo”.

Eu disse que tinha esquecido o diário. E que realmente devia voltar a escrever nele.

Mas sinto que estarei a falar dos mesmos temas. De novo, e de novo. Mas tudo bem, penso agora.

Ninguém vai ler essas palavras. Não as mostrarei a ninguém. Temos um pacto de confidencialidade.

Talvez um dia, num livro póstumo.

Porque é depois da morte que as coisas ficam grandes, as pessoas importantes e os feitos se tornam notáveis. Depois da morte.

***

Depois da morte não se sabe.

***

Continuo em São Paulo. Mas agora eu vivo na Mooca e pago meu próprio aluguel, às vezes com força de trabalho e permutas, outras com dinheiro mesmo. Continuo performando, agora sem a perna de pau e com um vestido que Emeralda me deu, rosa com detalhes verdes. Ainda fumo maconha e ainda jogo no vaso sanitário de vez em quando. Ainda não procurei um hospital (ou seja, continuo hipocondríaco). Ainda amo A Letra B, e sinto falta dele todos os dias.

Mantenho contato com o sobrinho que descobri recentemente ser produtor musical. É ele quem vai me levar ao lugar onde mereço estar: o palco. Hahahaha. O palco da vida. Que engraçado. Como se eu tivesse força de vontade suficiente para me tornar rockstar aos vinte e sete, ou desenvolver alguma outra aptidão e levá-la além da mediocridade.

Tento ao menos desenvolver a literatura, portanto, já que essa me é intrínseca mesmo. Dos outros desejos posso me abster, por vontade ou sacrifício, mas de escrever, não. É uma necessidade, um clichê de quase todos que se ousam dizer escritores, autores com assinatura. É por isso que sumo, mas volto.

Volto com olhos de presente. Mas agora o professor me pede para relembrar um episódio de infância. E escrever sobre ele. E inventar algo e colocar no meio do texto. Ora, é basicamente o que tenho feito ao longo da trajetória da minha escrita. Viver coisas. Observar coisas. Inventar coisas. Compartilhar coisas. Misturar tudo, no grande liquidificador da ficção.

Eu até rascunhei alguma coisa ruim. Decidi falar sobre o dia em que me perseguiram da escola até mais ou menos metade do caminho de casa, e eu, com doze, treze anos, talvez, fui alvo de chutes, empurrões e pedradas – dardos de ódio lançados por desconhecidos. Alguns deles a pé, outros de bicicleta, mas todos moleques como nós, eu e meus amigos mudos e quase estáticos de medo. Nós, poeira das estrelas no ar quente e seco do planalto central. Prisioneiros ao ar livre.

E falaria de como nos sentimos horrorizados diante do drama daquilo. Até que o pavor se tornou revolta: Por que estão fazendo isso comigo?, perguntei, num ato de catarse pós-expiação. Só ouvi risos de volta. Risos sórdidos, mas também de desespero, um desespero doído e inconsciente, por precisarem de afirmação pela violência. Eu sabia porque faziam aquilo. Meus amigos, em sua ingenuidade, sabiam, e talvez ficaram quase tão traumatizados quanto eu.

Mas eu só ia falar disso porque foi a única coisa que me veio à cabeça. Eu poderia falar de outros traumas. Ou de como eu brincava com bonecas feitas com caneta bic e linha de crochê. Ou ainda de como inventei uma profissão chamada Mocatriz, para reunir num só termo as habilidades de modelo, cantora e atriz.

Mas na verdade ainda não encontrei palavras para falar de nada disso. Elas me escapam todas. Então, provavelmente pularei essa primeira tarefa. Isso. Pularei. Com sorte na próxima terei conseguido desenvolver um argumento melhor. Um repertório adequado de memórias a serem usadas para construir histórias que possam ser úteis para as pessoas. Produtos sólidos.

Elas, que precisam das palavras para escapar do tédio do mundo de fatos fabricados, da sabedoria em extinção.

Como narrador, renuncio as sutilezas psicológicas.

E, não tendo as palavras, me calo.

Reduzo-me à minha mudez.

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