Eles me perguntaram qual era o gosto da liberdade

Há cinco anos, fugi da prisão.

Uma prisão ao ar livre, como definiu uma vez Clarice Lispector.

Seu nome era Brasília.

Fugi para embriagar-me de liberdade e paixão. Fugi para encontrar o mar e andar na montanha-russa da vida.

E voltei algumas vezes, para visitar os cativos.

Na primeira, o horror.

Na segunda, o nada.

Na terceira, o perdão.

***

Pela primeira vez eu senti falta de casa e desejei com veemência uma oportunidade de visitar a família e os amigos encarcerados pelo ar seco, a terra vermelha do altiplano e o vigilante céu de beleza opressora. Quase um ano e meio passou. A lembrança era de um vazio: uma folha em branco onde se poderia escrever qualquer coisa. Até desejei escrever algo, mesmo que não soubesse o quê.

Aturei o frio e a solidão dos aeroportos. Vi os espaços em transição e as pessoas bocejando. Vi o desenho de um avião e fora da fuselagem vi também os rostos cansados das pessoas e o ruído das engrenagens. O sol da manhã já castigava. A luz era incômoda. Tudo continuava raso e entediante na cidade inventada. Só que a própria prisão parecia menos captura e mais alguma outra coisa.

***

Acho que fiz as pazes com o lugar. Olhei pra Torre de TV cutucando o céu e fiz uma foto. As nuvens brancas escorregando ao sabor da corrente, acima da estrutura pontiaguda de metal. E numa camada superior, o mar azul e infinito em que nadam os astros, as aves e as coisas que inventamos.

***

E então todo o amor e felicidade genuína das pessoas, em verem-me livre. E, ainda que livre, disposto a voltar para saudá-los. Provei de um sabor que não conhecia. Eu era novo. Algo que em mim mudou um pouco antes, e agora ganhava uma coroa. Que era uma memória ou um símbolo que ainda não entendi, mas que sinto e chamo estranhamente de perdão.

Eu fugi para encontrar a mim mesmo. Mas foi no retorno que atinei. E reconheci nesse olhar do avesso a pele nova que eu tinha, por fora e por dentro. E me acariciavam, as pessoas, gesto que eu devolvia com cautela, mas com honestidade tão latente que alargou as travas em nós. E foi bonito e transformador, porque eles também finalmente me viam.

***

Comemos juntos.

Falamos sobre como não usar shampoo pode ser saudável para nossos cabelos.

Sobre como o vegetarianismo poderia permitir uma vida melhor não só para nós, mas para o resto.

Falamos de coisas sem importância e também de planos e de sonhos. Daqueles que conseguimos concretizar, ainda que arrastados pelos braços. E de como as coisas podem ser difíceis. E da sorte, das bênçãos e das incertezas e expectativas relacionadas ao futuro.

E falamos também da liberdade (alguns me perguntaram qual era o gosto).

***

E escrevi:

“Nesse momento, as famílias que eu conheço, e até mesmo aquelas sobre as quais não sei absolutamente nada, continuam a estabelecerem-se como um dos pilares fundamentais da nossa vida: mesmo quando elas não atendem aos nossos anseios. Mesmo quando elas fogem do padrão que podemos julgar mais adequado. Mesmo quando pais, mães, irmãos, filhos se vão, numa série de encontros e desencontros que é a marca perene da vida.

Podemos brincar às vezes, numa mesa com amigos, dizendo que na nossa família não existe ovelha branca. E podemos reclamar de como gostaríamos de ter nascido num ambiente diferente, com pessoas diferentes, mentes diferentes. Podemos até querer nos afastar, e ainda assim eles continuam estranhamente presentes. Num sonho. Ou numa memória que você gostaria de apagar, mas não consegue.

Família é uma presença contínua. Mesmo que você não tenha uma, ao menos nos moldes mais formais de se constituir uma família. Afinal, família pode ser quem você quiser, também. Se você não pode renegar a sua, ao menos pode ajudar a configurá-la. Escolher, selecionar, agregar, contribuir. Você, também, forma e transforma a sua família.

As famílias que eu conheço, e até aquelas sobre as quais não sei nada, podem estar juntas ou separadas, em algum lugar ou lugar nenhum.

Mas jamais deixarão de ser a força catalisadora de tudo aquilo que somos e vivemos, do tutano nos ossos ao mais íntimo de nossas almas”.

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