Amores perdidos: onde encontrá-los?

Ele quer me matar. É um sádico. Sei disso porque agora me pede para escrever sobre você, mesmo depois de ter me visto chorar como um bebê em plena sala de aula. E se eu chorar de novo na frente de todos? Ao menos da primeira vez eles estavam de olhos fechados. Tenho certeza que ninguém notou. Só ele, com seus olhos de enigma. Odeio esses exercícios, eu nunca me contenho. “Agora pensem naquilo que insistiu em tomar o pensamento de vocês durante a meditação”. Patético.

E o que mesmo eu vou dizer sobre isso, depois de já ter dito tanto? Eu nem quero escrever. Assim como às vezes não quero existir, sobretudo se você não está por perto. É que a escrita pode ser uma cilada. As pessoas podem achar que você é o que você escreve. Podem confundir autoficção com autobiografia. Tentei explicar a diferença pra minha mãe essa semana, quando ela ligou preocupada porque descobriu meus textos na internet. Não sei se entendeu.

Parto do meu braço para criar um corpo. O braço é meu, mas o corpo não, expliquei. E de onde vem isso?, ela quis saber. Eu não sei. O que eu sempre soube é que queria escrever. Não posso fazer outra coisa. Na verdade posso cantar, atuar, dançar, até. Mas escrever é como respirar, mesmo que eu tenha dificuldade, às vezes, em razão de uma infecção respiratória ou de um amor perdido. Amores perdidos talvez sejam piores que infecções. Trata-se uma infecção. Mas como tratar um amor que se perde em meio aos equívocos, ao caos, ao tempo?

Com sorte o amor só esteja perdido, não acabado. Porque se estiver perdido há chances de, por mais improvável que pareça, encontrá-lo em alguma esquina pelo Centro ou pela Zona Leste. Na Avenida Paulista lotada aos domingos. Ou talvez num vagão de metrô amontoado de gente e de odores, por volta das seis da tarde. Ninguém se encontra por acaso em São Paulo, me disse uma amiga. E tive a mesma sensação de quando tentei, sob o olhar de deboche do atendente, encontrar no Achados e Perdidos da estação Barra Funda um aparelho celular esquecido no dia anterior.

A esperança das pessoas morreu, confidenciei choroso a outra amiga. E insisti numa ideia que poderia salvar muitas histórias: um Achados e Perdidos do amor. Porque, insisto, um amor perdido pode ser encontrado. Ainda que seja difícil ou leve tempo. Mas se estiver acabado, então, é como morrer de infecção generalizada. Ou como deixar de escrever, se escrever é importante. A amiga me olhou como se dissesse: você está sendo ridículo, Felipe. E pensei que estava cumprindo com maestria a minha função.

Porque obviamente, absolutamente, ele quer me ridicularizar. Não há outra razão para propor uma atividade como essa, justamente no dia da minha leitura, quando meus colegas todos julgarão palavra por palavra nesse papel. E eles vão resgatar cada comentário que fiz durante as leituras de outros alunos e vão descontar. Dirão que meu texto é piegas e unidimensional. Que sou incapaz de sair da minha zona de conforto. Vão perguntar de que diabos estou falando, afinal, se de escrever ou de amar. E eu vou dizer que dos dois ou de nenhum, tamanha a intensidade e desnorteio com que pratico um e outro.

Pelo menos não poderão falar nada sobre o tamanho dos meus parágrafos. Eles estão harmônicos. E você ao menos terá um texto para chamar de seu. Você reclamava, às vezes, que eu nunca escrevia sobre nós. E agora, quão irônico, só me resta escrever sobre nós. Nós, perdidos, talvez acabados. Nós que talvez nos esbarremos sob a poeira das estrelas numa cidade de concreto. Ou que talvez cantemos a plenos pulmões canções de amor tristes e pungentes sobre amores acabados.

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