Alô?

Alô?

E deu uma longa tragada no cigarro.

Clarice? Graças a Deus você atendeu!

Quem é?

Sou eu, mulher. Felipe.

Que surpresa. Quanto tempo faz.

Não seja fria. Tem tempo mesmo, eu sei. Mas se eu te contar como anda a minha vida… Você vai dar um pulo pra trás.

Quando foi a última vez? Foi pra falar da fotografia, não foi? Você disse que tinha medo de que olhassem pra você e só enxergassem a fotografia.

Quem disso isso foi você. Eu só me reconheci nas suas palavras.

Eu? E quando foi que eu disse isso?

Não lembro direito, Clarice. Acho que foi naquele texto sobre o ser eleito.

Que curioso, eu também não lembro.

É que você escreveu muito. Mas então, não é sobre isso que eu queria falar. É sobre outra coisa.

Você só me procura quando está aflito. Ouço a aflição aí contigo.

Clarice… Não me julgue. E isso não é totalmente verdade. Te escrevi uma vez e até usei exclamações, tamanha a alegria.

É verdade. Faz muito tempo. Mas diga.

Continua fumando? O mesmo Hollywood vermelho? Ouvi o estalar dos seus lábios. Está tão quieto aí.

Marlboro. Nem sei se fazem mais daqueles. As crianças não estão. Viajaram com o pai. Fiquei porque estava cheia de coisas falando comigo. Não queria mais ruídos. Mas de repente me senti só. Só por isso atendi.

Pare, Clarice.

No dia em que você parar com a verdinha.

Parei. Tem duas semanas.

Vai voltar?

Não vou. Dessa vez é sério.

Acredito.

E sei que ela não está sendo irônica. Clarice nunca foi de ironias.

Mas então. Preciso de um conselho profissional. Ou um conselho pra vida, de forma geral, não sei.

Eu não gosto de dar conselhos, você sabe.

Tá, Clarice. Eu sei. Finja que estamos conversando normalmente.

Posso tentar.

E expeliu a fumaça, num sopro longo e rumoroso.

É sobre a minha escrita. Ando preocupado. Ultimamente tudo o que escrevo são sentimentalismos e clichês. Sou de uma obviedade gritante, Clarice! Há alguns dias mesmo, fui realizar uma atividade de um curso, e, creia, fui capaz de escrever: “Amores perdidos talvez sejam piores que infecções. Trata-se uma infecção. Mas como tratar um amor que se perde em meio aos equívocos, ao caos, ao tempo?”. É grave, não é?

Ah, querido…

Fale, Clarice, não me poupe.

Você devia ter escrito para o Rilke. Não viu o que ele fez pelo jovem Franz? Não sou capaz de algo igual.

As cartas do Rilke não ajudaram. Aliás, eu nem consegui terminar de lê-las. Esse é outro problema que tenho ultimamente também: não consigo avançar nas leituras. Ganhei livros teus e vendi pra comprar maconha, na pior fase do vício. Baixei alguns e estão lá. Me encaram como se perguntassem quando vou lê-los. Teu eu só li uma das coletâneas de crônicas. E o da G.H., que foi o primeiro. Até hoje aquilo ainda reverbera em mim. Tenho medo das suas palavras, você bem sabe.

Bobagem.

Eu sei, mas tenho. Me diga, Clarice. O que eu posso fazer para me salvar? Para salvar a minha escrita?

Salvar sua escrita de ti mesmo? De novo: bobagem.

Você está dizendo que escrevo coisas piegas e clichês por que sou assim? Quero escrever coisas que impactam vidas, Clarice. Coisas que conversem com as pessoas. Mas não quero ser um mero reprodutor de estereótipos. É isso que me tortura. Não vê?

Não é culpa sua se as pessoas transformaram as grandes verdades da vida em clichês.

Você está sendo complacente.

Estou sendo verdadeira comigo mesma. E contigo. É o que você deveria fazer também, não importa o que pensem. Aquilo que tem de mais honesto é a chave que abre a porta do outro e te conecta a ele.

Que sentimental, Clarice.

E pensei que se Clarice me falava aquelas coisas e se permitia ser piegas, talvez eu também devesse não me importar tanto.

Mas pense em concluir suas leituras. Ler sempre abrirá portas também, mas portas para dentro de ti mesmo.

Tem razão. Tem razão, repeti, sacudindo a cabeça afirmativamente. Obrigado, Clarice. Vou refletir sobre o que me disse. Estou correndo, tenho que escrever mais um texto pro curso. Estou fora do prazo de novo.

Tudo bem.

Prometo te escrever também.

Isso, escreva. Não gosto de falar ao telefone.

Eu sei, eu sei. Mas que alegria me deu falar contigo! Se eu estivesse aí agora compartilhava com você um cigarro. Em agradecimento. É tão bom quando se fuma acompanhado, costurando uma boa conversa…

Cuida-te.

Você também. Um beijo.

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