Morrer de grandeza

A Pequena Morte

Não nos provoca riso o amor quando chega ao mais profundo de sua viagem, ao mais alto de seu voo: no mais profundo, no mais alto, nos arranca gemidos e suspiros, vozes de dor, embora seja dor jubilosa, e pensando bem não há nada de estranho nisso, porque nascer é uma alegria que dói. Pequena morte, chamam na França a culminação do abraço, que ao quebrar-nos faz por juntar-nos, e perdendo-nos faz por encontrar-nos e acabando conosco nos principia. Pequena morte, dizem; mas grande, muito grande haverá de ser, se ao nos matar nos nasce.

Eduardo Galeano, em O Livro dos Abraços

***

Me beija com sede da minha saliva
Dou-lhe de beber
Irrigo seu solo e torno-o fértil
Seis sentidos inteiros
A força que nos levanta é a mesma que nos horizontaliza
Causa que nos entrelaça como uma costura de pontos muitos firmes
Nosso prazer é indizível. É da ordem do inefável. Essas palavras não dão conta
Há, sim, risos, ao contrário do que diz o homem das palavras
E há, também, dores que suportamos com genuína alegria
Tremulamos
Faz-se força na vulnerabilidade
A substância imaterial que nos envolve busca corporizar-se
E a carne, transcender-se
Fluidez embrutecida
É um desejo de vida e de morte
Morrer da grandeza cujo só os amantes são capazes
Da pequenez do que de tão minúsculo produz vida
Pequena morte, dizem os franceses
Gozo biográfico, eu digo
Se nascer é uma alegria que dói
Morrer é uma tristeza que provoca ventura.

Felipe de Paula Lima, Morrer de Grandeza

Ilustração: Andreas Heumann

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