Na ausência de teletransporte, o metrô

Se lhe perguntassem que habilidade gostaria de ter caso fosse uma personagem da Marvel ou algo do tipo, ela certamente não responderia nada como ser invisível, controlar o tempo ou mesmo autorregenerar-se. Embora enxergasse vantagens em todas essas curiosas faculdades, nada seria tão útil em sua vida proletária como a possibilidade de se teletransportar. Especialmente depois de mudar para São Paulo – embora o transporte no Rio de Janeiro fosse uma questão igualmente delicada. Na megalópole de concreto ao menos é possível contar com a eficiência metroviária, apesar do desconforto do horário de rush. Nunca precisou pegar ônibus na capital paulista. Considera um enorme luxo morar a apenas três minutos a pé de uma estação de metrô. Melhor que ter um carro, costuma dizer. Mas nada como teletransporte.

Coleciona experiências diversas das viagens nos vagões das linhas paulistas, especialmente vermelha, amarela, azul e verde. Hoje mesmo, por volta das dez e meia da noite, enquanto fazia as devidas conexões para chegar ao trabalho, na Vila Madalena, permaneceu vinte claustrofóbicos minutos trancafiada dentro do trem. “Há um corpo na via”, explicou a voz no sistema de som. Não era a primeira vez. Nem seria a última. Outro dia, na estação Tatuapé, por coisa de minuto não presenciou um se atirar sobre a ferrovia. A linha vermelha ficou rubra de sangue. Chegou atrasada quase meia hora. Diante da cara feia da recepcionista do turno anterior, esbravejou: alguém se jogou nos trilhos, mulher! Tenho cara de secretária de suicida? Não sou eu quem agendo os horários.

Semana antes, presenciou um jovem acusar um senhor de assédio. “Você passou a mão na minha bunda!”, gritava. O namorado tentava contê-lo, sem sucesso. “Vai descer agooora”, e conduzia forçosamente o homem pelo colarinho. O outro resistia, chamando-o de bêbado e desequilibrado, enquanto os passageiros assistiam com curiosidade e cautela. Descabelado e com a camisa repuxada, o senhor enfurecido desceu no Brás, enquanto o jovem discursava, trôpego e insigne: “Manas, não sustentem homem abusando de vocês! Eu não sustento!”. Achou a cena toda um tanto patética.

Ela mesmo sustentava meio mundo. Bastava sair na rua e pediam todo tipo de ajuda. Do trocado pra comprar cachaça às moedinhas para completar a passagem. Até conselho pediram, em certa ocasião. Devo ter cara de Madre Teresa de Calcutá, pensa, nessas situações. Cara de boazinha, como disseram logo que desembarcou em terras cariocas. Não sobrevive um mês por essas bandas, avisaram os mais maliciosos. Sobreviveu. E conheceu, inclusive, as vozes dos morros e rincões distantes onde não se podia chegar usando o ridículo metrô carioca.

Na pauliceia de seu dia a dia ordinário, as vozes são quase sempre conservadoras, venham de onde vierem. Há estrangeiros, muitos deles negros e fortes. Talvez africanos. Gesticulam e falam alto, mas quase ninguém entende. Aparentemente, não deve ser nada que preste, desdenha. Bolivianos predominam na linha vermelha. Americanos e europeus, na amarela e verde. Asiáticos, na azul. Há cariocas, com o sotaque típico que a ela provoca nojo e tesão, misturados. E há uma senhora que fede, fede muito! Não fala, apenas balbucia coisas incompreensíveis. Sem parar. Que vontade de entendê-la, ela sente. Veste quatro calças, e nenhuma delas chega perfeitamente até os quadris. Mais uns três casacos sobrepostos. A pele está encardida. Carrega um líquido amarelo numa garrafa pet pequena. O que seria? Uma moça oferece lugar pro obeso. Ele se ofende.

Cidade fria! Mas é só no outono/inverno, diz o nativo. É o ano inteiro, diz o gaúcho, na fila do Bilhete Único. Logo o gaúcho. De certo era de outro frio que falava. Logo o gaúcho. Nesse dia viu homens se beijando no banco frente ao dela. E mulheres se beijando do outro lado da Sé, sentido Corinthians-Itaquera. Ela mesmo não beija há mais de seis meses. Mas vez ou outra se apaixona no metrô. Paixões furtivas, mas intensas, que rendem versinhos que esconde em rascunhos no celular e fotos que tira escondida e manda pras amigas pelo WhatsApp.

Já viu de tudo e está cansada. Quando o tédio ameaça demais o humor, faz conexão na linha azul em vez da amarela. É a mesma coisinha, embora o trajeto pareça mais longo. Se pega a amarela tem que descer na República e seguir sentido Butantã. Se o trem não tiver chegado, dá tempo de caminhar até o fim da plataforma, pela esquerda. Dessa forma sai na frente quando desembarcar na Paulista e tiver de cruzar o corredor pra fazer conexão com a linha verde. Ô gente morosa!

Se escolhe a azul tem que descer na Sé e pegar sentido Jabaquara. Na Paraíso conecta com a verde. Na ida dificilmente dá pra ir sentada. Se o vagão estiver muito cheio é quase certo sofrer uma relada disfarçada de esbarrão. Prefere esse trajeto na volta. Só tem essa alternativa. Aborrece rápido também. Os olhos se acostumam à paisagem de túneis e de gente. Tem gente que traz livro. Ela acha bonito gente que lê. A maioria tá pendurada no celular, os olhinhos rígidos e os dedos ágeis.

Metrô cansa. Devia pegar ônibus. Mas cansa também. Demora. Só teletransporte mesmo. Que bom seria! Viajar. Poderia morar em qualquer lugar do mundo, e trabalhar em qualquer lugar do mundo. Não haveria namoros à distância. Não haveria saudade. E seria possível até mesmo se esconder de pessoas. De qualquer pessoa. Sem vagões apertados e sem filas pra comprar tíquetes de passagem. Sem composições vazias que passam direto pela estação quando se quer muito chegar em casa. Sem correr desajeitadamente e dar de cara, constrangida, com a porta se fechando.

Pensa em tudo isso no trajeto de volta até a estação. Como pensa, a moça! O que lhe falta ocorrer no metrô? Assalto? Já sofreu, na CPTM, indo visitar uma amiga no Capão Redondo. Pedido de casamento? Na linha turquesa. Parabéns pra você? Entre a Tiradentes e a Armênia, quando foi passar o fim de semana no Rio. Vômitos, corpos sonolentos caindo ao chão… Um adolescente chapado que urina nas calças, já de manhã. A voz feminina que diz “desembarque pelo lado direito do trem”. Do lado direito de quê seria, se não do trem? Divaga nas memórias férreas e só desperta com o sacudir dos cabelos cacheados empurrado no deslocamento do corpo de aço vindo em sua direção. Mais meia horinha. Mais duas conexões. Três minutinhos a pé. E pronto.

Antes de entrar, ela espera que saiam, óbvio. Quem dera todos fizessem igual. Um velho dorme. Senhor, é a estação terminal, aqui, avisa. Sabe-se lá onde era pra ter descido. Senhor, ela insiste, cutucando com força a perna senil. Sente o frio atravessando o tecido fino da calça do velho e incomodando de leve as pontas dos dedos. Pra quê um ar-condicionado tão gelado? A cabeça branca caída sobre o tronco. Vai ficar com torcicolo. Senhor! E a porta se fecha. Senta num banco próximo, resignada. Não há mais ninguém no vagão além dela e do homem em sono profundo. Se bobear já fez a viagem umas três vezes, pensa, sacudindo a cabeça em negativa.

Coloca o fone de ouvido e dá play na Christina Aguilera. Na ondulação do vagão quase adormece também, e o velho quase cai, sem qualquer reação. Põe a enorme bolsa de lado e desliza do banco devagarzinho, colocando-se de cócoras frente ao velho e levando a mão direita a quase tocar as cavidades nasais do homem. Nem cócegas. Recolhe a mão junto ao peito e sofre um breve estupor. Teletransporte, ela pensa, num relance automático. Vai ter de romper a proteção e acionar o botão de emergência. E quando deixar o vagão, terá mais uma história pra acrescentar ao relicário das andanças na locomotiva.

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