Carta aberta a Alice Rocha

Um e-mail convocador, uma resposta pública. Publicado originalmente em 30 de junho de 2015, “Carta aberta a Alice Rocha” já trazia muitos dos questionamentos sobre vocação e trabalho que mais adiante me levariam a provocar uma grande transformação na minha história pessoal e profissional. Todos esses pensamentos e dificuldades compartilhados em tempo real com um público que eu não sabia existir. Lê-lo de novo, agora, me ajuda a compreender a dinâmica de uma voz que se constrói. Ou melhor, que escapa: e nessa fuga, se descobre, (re)descobre seu potencial.

Mensagem de Alice Rocha

Olá, Alice.

Obrigado pela sua mensagem e desculpe a demora em respondê-la. Seu e-mail me deixou atônito, confesso.

As coisas por aqui estiveram bem loucas nos últimos meses. Eu voltei ao Brasil no ano passado, tentei resgatar um relacionamento e não tive sucesso nisso (falei sobre nesse texto, você leu?).

Depois consegui aquela que parecia ser uma ótima oportunidade de emprego, mas que apenas me sugou todas as energias e me deixou frustrado e muito triste (ei, aguardem um processo por assédio moral).

Agora que estou livre (leia-se: desempregado há um mês e meio), tenho tido bastante tempo para fazer reflexões. Ainda assim, repito, seu e-mail me deixou desnorteado. Não sabia por onde começar.

Bem, há tempos tenho tratado da questão do trabalho nos meus textos, sobretudo naqueles inspirados de fato na minha realidade. Por muito tempo vivi com a impressão de que eu não estava nos lugares em que estava.

E não estava mesmo, estava me violentando com trabalhos que não valorizavam minhas habilidades artísticas. Você sabe: precisamos pagar o aluguel, precisamos comer, precisamos sair de vez em quando ou mesmo poder pagar por uma assinatura do Netflix.

Eu me permiti.

Tripalium, ou o trabalho como punição

Nas últimos meses, entretanto, ficou mais claro que a responsabilidade por esse enorme abismo entre onde estou e onde gostaria de estar não é dos outros (não é fácil segurar essa onda de culpá-los por nossos fracassos pessoais).

É minha, absoluta e covardemente. Eu, por cultura ou ignorância, subverti a ideia de trabalho.

Na verdade, subverto-a agora: como mencionei no texto anterior a este, de março (você tem razão, é muito tempo sem publicar!) carreguei comigo até então o sentido original da palavra trabalho, aquele revelado pelo instrumento de castigo aos escravos. Quase vislumbrei a mesma dor que lhes era afligida, até que foi possível, como uma alforria, crer no exercício de uma atividade como ferramenta de realização, não de aflição.

Contudo, mesmo ganhando essa consciência e reconhecendo-me como autor, criador e artista e não apenas um funcionário adestrado, e mesmo que esse autorreconhecimento possa me deixar emocionalmente vulnerável e entregue em tempo integral, ainda é difícil livrar-me do monstro da resistência e da preguiça tão característica da minha geração.

Estamos todos sedentos por glória e poder, mas não queremos trabalho árduo, Alice. Queremos pular quantas etapas forem possíveis. Talvez isso explique o deslumbre pelos reality shows e pela fama fácil. Portões e olhos bem abertos.

Leia-me nas entrelinhas, ou, falemos de subsistência

Fato é que ontem me peguei num desabafo com um amigo praticamente implorando para que alguém acreditasse em mim. Choramingando por alguém que me abrisse a porta. Só isso, uma pequena gentileza: estou batendo, abra a porta.

É que está nítido que fora do trabalho venho trabalhando com frequência, ainda que não seja a frequência ideal. Seja quando abro os rascunhos do meu primeiro romance, seja quando escrevo um artigo pra Obvious, faço um release camarada para um amigo ou me envolvo em trabalhos diversos em que requisitam minha sensibilidade e criatividade.

Em síntese, tenho trabalhado há muito tempo. Me comprometido, em maior ou menor grau, em trabalhos que me estimulam, me desafiam e me fazem crescer como profissional e ser humano. Só não tenho mesmo ganhado dinheiro com isso.

Para ser brutalmente honesto, há duas moedas de dez centavos à direita na mesa e quase oitenta centavos na minha poupança. Isso é tudo. E eu nem sei quando será meu próximo salário, apesar do meu aluguel vencer em alguns dias mais.

Vê a encruzilhada em que estou? Em que estamos, afinal, suponho que essa tem sido a sentença para muitos como eu.

“E eu com isso?”

Você deve estar se perguntando, Alice, o que esses parágrafos todos têm a ver com o seu e-mail. Em primeiro lugar, não me entenda mal. Quando me inscrevi para participar da comunidade Obvious tinha completa noção de que vocês não pagariam nada pelos meus textos. Vocês me abriram a porta! E, mesmo indisciplinado, me convidam a ficar e mostrar meu trabalho.

Sua mensagem me ajudou a notar que as pessoas podem dizer “eu acredito em você” de diversas maneiras. Cedendo espaço para que você escreva o que quer e acredita e chegue a um número maior de pessoas com isso. Compartilhando suas palavras nas redes sociais. Convidando para um almoço. Pagando seu aluguel por um mês ou dois até que você retome o manche. Oferecendo carona. Dando algumas roupas e fazendo alguns elogios, mesmo críticas. Doando tempo.

Amanda Palmer, uma artista plural, descobriu isso muito antes. É o que ela chama de A Arte de Pedir, mas não creio que estejamos falando da mesma coisa aqui, embora talvez tenha passado essa impressão.

Sabe, recebo e-mails de vocês periodicamente. Geralmente eles são menos sensíveis que o seu e ameaçam remover o blog em uma semana caso eu não poste nada. Às vezes junto inspirações e sai algo novo. Às vezes corro e acho um texto antigo para postar, porque gosto do espaço que vocês me oferecem. Muito obrigado por isso.

Ocorre que essa série de e-mails, selado pelo seu último, como mais uma cartada no desvendar do jogo, me ajuda também a entender que fazer o que gosto não significa que vou trabalhar menos e que as coisas serão mais fáceis. Só que vou trabalhar com mais prazer.

E que algumas vezes não receberei nada material por esse esforço, mas que isso não significa que devo abandonar ou boicotar minha real vocação para me dedicar a um trabalho apenas pela remuneração – que na maioria das vezes mal dá para o básico, sejamos francos -, sem amor ou entusiasmo por aquilo. Pelo contrário. A vida e os livros me ensinaram a beleza dessas palavras, e vivemos para ser belos das mais diferentes formas.

Sobre palhaços, “trabalhar mais”, o fantasma de Van Gogh e o fervor dos tempos de transição

É justo e desejoso, portanto, que eu trabalhe mais pelo que quero. Talvez seja essa a questão aqui, e você contribuiu para esse entendimento. Lembrei agora de um fim de tarde dentro de um ônibus em Brasília e de uma senhora que, discursando na frente dos passageiros, não esmolava. Dizia que era diarista e pedia que anotassem seu telefone e lhe indicassem para trabalhos. Achei bonito.

Penso que reverter a lógica instaurada dependa de uma mudança de foco ou abordagem – o que pode ser mais ou menos difícil. Talvez seja um evidente problema de networking, visto que não sou dado a interações meramente sociais. Talvez eu não esteja batendo nas portas certas. Talvez eu não esteja batendo forte o suficiente para ser ouvido por alguém. Talvez não seja a hora.

Talvez seja realmente inacreditavelmente difícil viver e ser reconhecido por aquilo que se é, ao contrário do que aquilo que querem (a sociedade, o sistema, os demônios) fazer de você. Lembro agora de Van Gogh. Pobre Van Gogh, tendo sucumbido à loucura e vendido apenas um quadro enquanto vivo.

Uma grande e desprendida amiga palhaça me disse certa vez que se orgulhava de poder viver, ainda que aos trancos e barrancos, do que criava. De se sustentar da sua arte. “Eu vivo de mim”, foi o que ela disse, jogada ao meu lado numa das calçadas do bairro Santa Cecília.

Prestes a chegar aos vinte e sete, eu irreversivelmente quero saber o que é isso. Não quero chegar aos trinta me perguntando que merda estou fazendo com a minha vida (desculpe pelo termo). Talvez seja preciso abrir mão de mais coisas. Dinheiro, entre elas. Viver com menos ainda. Não sei. Não sei.

Desculpe pela verborragia, Alice. Tenho certeza que você esperava uma resposta mais objetiva, mas estou num momento de transição e de grande fervor interno.

De toda forma, fique satisfeita com o resultado do seu e-mail. Seguramente não deixarei de escrever, posto que me é intrínseco. Também caminho para uma rotina mais disciplinada e responsável, em respeito ao dom que me foi dado e àqueles que já acreditam em mim.
Sou um homem de palavras e esse é meu grande voo num céu de folhas brancas.

Mais uma vez, obrigado.

Com carinho,

Felipe.

PS: desculpe também pelas excesso de aspas, pelos parênteses e pelo caráter um tanto confuso dessas notas. Nem sempre consigo fazer com que entendam com clareza o uso às vezes demasiado particular que faço desses artifícios.

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s