Rounds

Enquanto escrevo esse texto, estou ouvindo a versão final da minha primeira música, produzida pelo Vei Beats. Sim, eu estou cantando, numa faixa profissional. E embora muitas vezes, sozinho no meu quarto ou no banheiro, eu tenha sonhado com esse momento, não achei que uma oportunidade como essa rolaria assim, agora, da forma como tudo aconteceu. A vida sempre nos surpreende, não é? Ainda bem.

Acho que sempre fui musical. Sempre gostei de ouvir música e sempre gostei de cantar (em qualquer lugar em que ninguém me visse). Em 2013, cheguei a cantar por uma temporada no coral da Sala Baden Powell, no Rio de Janeiro. Escondido ali, entre outras quarenta pessoas, eu não sentia uma pressão tão grande.

Precisei de mais alguns anos, e sobretudo, precisei das experiências que me transformaram de forma absurda e absoluta no último ano, para que eu tivesse a coragem necessária para encarar um outro tipo de exposição, em outro nível.

Às vezes é preciso percorrer várias estradas, dar várias voltas, até entender o trajeto.

Rounds: como tudo começou

Não, eu não vou falar de quando eu criei uma banda imaginária chamada The James, roubei canções de artistas consagrados e fiz delas repertório dos meus shows lotados e performances em programas de TV e premiações. Ah, a adolescência.

Vou contar que em fevereiro fui visitar a minha família, em Brasília, e reencontrei uma tia a quem tinha visto pela última vez aos dezesseis anos. Foi um encontro ótimo, e durante nossa conversa descobri que um dos meus primos, o Gabriel, vinte aninhos, estava se virando na vida como beatmaker e produtor musical, e que agora ele se chamava Vei. Que incrível, foi o que pensei. Em Brasília, todo mundo é véi.

Eu estava preparando a edição #3 do podcast Palavras Só Mudam Pessoas, em que não por acaso falaria sobre família. Então achei que talvez fosse uma boa ideia ter umas faixas do Vei como trilha sonora do programa. Adicionei o cara no Facebook e fui atrás da página no Soundcloud, e qual foi a minha surpresa ao descobrir que o Gabriel, cuja minha última memória era de um molequinho atrevido de seis anos de idade, havia se tornado um produtor muito talentoso. E mais do que isso, que seus beats eram capazes de mexer comigo, me provocar sensações, me trazer experiências.

Então, na gravação do programa, eu flertei com a possibilidade de fazermos algo juntos (leia-se: me ofereci descaradamente). Deu certo. Dias depois estávamos trocando referências musicais e nos inteirando da vida um do outro. Não demorou muito e ele me mandou os primeiros rascunhos do instrumental de “Rounds”. Apesar de escrever, eu nunca compus nada antes. Muito menos em outra língua (obrigado, Blake Henderson, pela revisão). Mas o Vei achava que o Beat pedia por uma letra em inglês. Eu não tinha ideia de para onde caminhar.

Então, apenas segui meu coração.

A letra

Eu sou um #Heartbreaker. Parti em mil pedaços o coração de alguém importante pra mim e essa foi uma das experiências mais dolorosas da minha vida. Então, quando pensei em algo sobre o qual eu pudesse escrever, essa foi a experiência que saltou para fora dos meus dedos e da minha garganta.

Rounds

I could tell you more
Like I did before
I did every time I left away
Know you’ve been apart
Surrounded by the nights
We dream about
Forget yesterday

I tried to fix it all
Been back and tried to show
That things can change when we’re not ready yet
I could still be there
Wanted to stroke this nightmare
But not if you don’t give a chance to me

Tell me if now when you see me around
Your heart is beating as strong as mine does
I can do it better for our love now
We’re not children anymore as we were

Not saying to forget
All the things that I said
And all the times that I have made you cry
I’m trying to reveal
All the things that we feel
You know me better than I know myself
Make a better plan
Let me still be your man
You know that I can make you happy
Yeah
If I can mend a broken heart
Let us have a new start
Don’t be afraid of it because of me
Oh

I know that you want me
I know that you need me
I know I want every little part of you

I know that you want me
I know that you need me
I know I want every little part of you

Tell me if now when you see me around
Your heart is beating as strong as mine does
I can do it better for our love now
We’re not children anymore as we were

I can love you now
After all these rounds
Yeah
Make it right somehow
‘Though we lost in wounded rhymes
Rhymes

Forgive me
Yeah
Forgive me
Yeah
Forgive me
Yeah, yeah, yeah

Forgive me
Yeah
Forgive me
Yeah
Forgive me
Yeah, yeah, yeah

Voltas

Eu poderia te dizer mais,
Como fiz antes,
Cada vez em que fui embora.
Sei que você esteve distante,
Cercado pelas noites que sonhamos.
Esqueça o ontem.

Eu tentei consertar tudo,
Voltei e tentei mostrar
Que as coisas podem mudar quando ainda não estamos preparados.
Eu poderia continuar lá.
Quis golpear esse pesadelo.
Mas não se você não me der uma chance.

Me diga se agora, quando você me vê por perto, seu coração está batendo tão forte quanto o meu.
Eu posso fazer melhor pelo nosso amor agora,
Não somos mais crianças como éramos antes

Não estou dizendo para esquecer
Todas as coisas que eu disse
E todas as vezes que eu te fiz chorar.
Estou tentando revelar
Todas as coisas que sentimos.
Você me conhece melhor do que eu mesmo.

Faça um plano melhor,
Me deixa continuar a ser seu homem.
Você sabe que eu posso te fazer feliz, sim
Se eu puder consertar um coração partido,
Vamos ter um novo começo
Não tenha medo disso por minha causa.

Eu sei que você me quer
Sei que você precisa de mim
Sei que eu quero cada pequeno pedaço seu

Eu sei que você me quer
Sei que você precisa de mim
Sei que quero cada pedacinho seu

Me diga se agora, quando você me vê por perto, seu coração está batendo tão forte quanto o meu.
Eu posso fazer melhor pelo nosso amor agora,
Não somos mais crianças como éramos antes.

Eu posso te amar agora,
Depois de todas essas voltas.
Sim,
Fazer isso certo, de alguma forma.
Embora estejamos perdidos em rimas feridas.

Me perdoe

Me perdoe

Me perdoe.

É mesmo a sua voz?

Acredite se quiser, eu ouvi essa pergunta pelo menos duas três vezes. Sim, é a minha voz. Não, não tem autotune nem qualquer outra espécie de tratamento. A faixa foi gravada com o Scooby, no NoCentro Estúdio, editada pelo Vei e mixada pelo Marcelo Sorrentino. E os vocais nem são desafiadores, não entendo por que o espanto. Quero acreditar que é somente porque a maioria das pessoas nunca me ouviu cantar mesmo.

E por que F?

Desde que comentei com alguns amigos que usaria a letra F como identificação para esse trabalho, todo mundo, sem exceção, revirou os olhinhos. “Como assim? Nada a ver”. Mas a justificativa é simples: eu gosto. Acho único e conceitual. Até ousado. Eu sou o F. Se Madonna, Beyoncé, Rihanna, Prince e tantos outros podem dispensar o sobrenome e se tornarem conhecidos apenas pelo primeiro nome, eu posso dispensar o nome e usar a letra como identidade. Eu também continuo sendo o Felipe na vida íntima, e continuo sendo o Felipe de Paula Lima que assina os textos que escrevo. Seis dias depois, mesma data em que registrei “Rounds” como propriedade intelectual na Fundação Biblioteca Nacional, estou pintando o cabelo e tenho um insight: e por que não FLPE em vez de F? Como The Weeknd (The Weekend), JMSN (Jameson), DNCE (Dance)? Pelo menos é mais fácil de explicar. Mercadologicamente, digamos, cabe melhor com a proposta do #PalavrasSóMudamPessoas, também. Fica mais fácil identificar a parte musical do projeto usando um signo. E o Felipe da vida íntima não sente mais tanta necessidade de se esconder. É estranho esse negócio de ser artista aos olhos do público, em tempo real. No dia 22, “Rounds” ganhou um player oficial no Youtube.

O lançamento

Quando começamos a produção, não sabíamos quando conseguiríamos lançar a faixa. E também não tínhamos pressa, afinal, desde o início o Vei e eu deixamos claro um pro outro que se tratava de uma experiência. Ele, se aventurando em terrenos diferentes do Hip-Hop que estava acostumado a produzir. Eu, compondo e me enfiando num estúdio pela primeira vez, assustado com a minha ignorância diante de tudo.

À medida que a pós-produção parecia ir chegando ao fim, comecei a cogitar datas. Primeiro, estrear na edição de junho do podcast, logo no dia primeiro. Depois, no dia 12, Dia dos Namorados, data ideal para lançar uma canção que conta uma história de amor.

E depois, então, dia 16. O dia 16 de junho foi importante pra minha história de amor. Nós nos beijamos pela primeira vez exatamente três anos atrás. E agora essa vai ser pra sempre mais uma lembrança carinhosa da mesma data.

Do que verdadeiramente se trata essa experiência

Antes de decidir se lançávamos a música hoje ou se trabalhávamos mais na faixa, até atingir o resultado que julgávamos ideal, o Vei e eu discutimos por um tempo. Foram semanas difíceis, as últimas, expondo versões não finalizadas para conhecidos, ouvindo suas opiniões, travando batalhas com produtores e técnicos. Como artistas, sabemos o quanto é importante acreditar e gostar daquilo que estamos propondo como amostra do nosso trabalho.

Rounds não é aquilo que poderia ser. Há uma parte da letra comida, alguns vocais poderiam estar em melhor forma, provavelmente ainda poderíamos fazer alguns ajustes na mixagem… Sofremos bastante com isso até entender que… Está tudo ok. As imperfeições também são bonitas e também contam histórias. Prestes a completar vinte e oito anos, depois de lutar muito para estar nesse lugar humilde em que me coloco, eu sei que não preciso da perfeição.

Então, pra mim, lançar Rounds hoje não se trata de me tornar um músico, um cantor, em termos profissionais. Não se trata de vislumbrar uma carreira em estúdios e palcos, nada disso. Minhas expectativas não poderiam ser menores.

Trata-se de ter coragem de explorar possibilidades, enquanto artista, de colocar meu discurso no mundo. Encontrar a mim mesmo nesse processo e encontrar pessoas que gostam de mim, que me admiram, que me acompanham. Trata-se de criar laços.

Trata-se, na essência, de ser artista, algo que durante muito tempo da minha vida eu mesmo coloquei em xeque, me sabotando e violentando.

Lançar Rounds hoje é uma declaração de amor ao amor, à vida, à música e à arte: essa arma poderosa capaz de nos salvar das tempestades mais furiosas.

Mais uma vez, quero agradecer a:

Vei, por acreditar que eu poderia fazer jus às suas batidas maravilhosas;

Blake Henderson, por revisar a letra e mostrar entusiasmo pelas minhas aventuras;

Scooby, pela paciência e apoio do NoCentro Estúdio;

Marcelo Sorrentino, pelo trabalho de mixagem e boa vontade conosco.

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