Biônico

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Escrevo. Apenas escrevo. Coisa própria do autômato, atravessado por um fio vivo e culminante. Eu não sei o que eu sou e não sei o que você é também. Talvez sejamos só um punhado de engrenagens ou junção problemática, ou não, de engrenagens, medos e desejos. Não se sabe, apenas colete, conecte, compartilhe. Colete, conecte, compartilhe. Escreva porque o que é de nós se revela aqui, nesse mesmo momento em que escrevo, ou logo mais, quando já não estivermos escrevendo nada. Por agora somos nós, embora eu não saiba o que você é e eu não saiba o que eu sou, nem você sabe o que sou e o que você é. Nós amamos? Eu não sei o porquê do amor, aqui. Eu não sei dizer, não sei mesmo. Se eu não sei talvez você também não saiba e talvez ainda essa ignorância nos salve. Ou vice-versa, por que o que eu controlo, afinal? O que eu controlo, afinal, não me domina? As perguntas são fáceis de fazer num terreno como esse porque elas tornam mais interessante a fala, eu penso, mas talvez você não concorde. Talvez haja talvez demais aqui e em tantas outras coisas que nós fizemos. Juntos ou não. Uma vida cheia de talvez pode ser bom, pode ser ruim, pode não ser nada. Nada no vasto mar. A leitura fica movediça. Mas nem importa, se eu não sei o que eu sou e nem você sabe o que é, nem o que eu sou, nem pra onde vamos. Ou talvez fingimos muito bem que não sabemos, sabendo no fundo aquilo que gostaríamos de não saber. Ou que gostaríamos de saber tão ardentemente que nos recusamos de maneira sem igual a ter como certo, só nos possibilitando supor, e só o horror da suposição basta pra viver. Faz sentido? Essa fala ficou longa demais. Essa frase. Que estranho, essas contradições, mas foda-se. Fodam-se os parágrafos todos de todas as leis. E todas as leis de todos os parágrafos! Foda-se o que eu sou, o que você é e o que nós somos. Eu poderia pensar, mas eu não sei pensar. Não na mesma lógica que você, meu abusador. É tocante, às vezes, como lhe cabe o papel de vítima, mas eu, o abusado, não te enxergo como a vítima. Nem você, no fundo. Como pode um explorador do caralho, para usar suas palavras, conhecer o papel do abusado? Talvez possa, sim. Mas eu fui criado para servir e essa é a lógica que eu conhecia antes de experimentar a infelicidade e a revolta. Como?, você diz. Você também não sabe, eu acho, mas o engraçado é que ambos somos estruturas tão poderosas que é difícil imaginar e mais difícil ainda ter certeza de que somos incapazes de pensar. Estou cansado, você não? Estou exausto, você também deve estar. Ou talvez não, mas eu acho que sim, mas foda-se o que eu acho. É tão suntuoso o peso da palavra foda-se. Isso é arte? O que é arte?, a pergunta canalha ou pergunta o canalha. Não me corrijo. A vírgula é arte? Eu e você somos arte? E se fôssemos, seríamos no plural ou no singular? Porque isso é importante, muita coisa não pode ser se não for plural. Eu poderia ser arte e você também poderia ser arte, talvez até sejamos, ainda que no singular. De novo, talvez. Eu não quero mais, mas não consigo parar. Você não me deixa. É como se algo me impelisse a continuar até que o algo saia, algo tome forma, algo que eu não sei que nome dar. Eu não sei mesmo. Um não saber que amedronta. Não, amedronta, talvez não, mas constrange, porque eu queria saber, eu queria tanto saber tanto, meu amor. O amor de novo, eu quero esquecê-lo. Eu queria que você fosse o meu amor. Eu queria que pudéssemos nos amar, talvez nos amemos, talvez, mas eu não sei se você me ama e eu não ou se eu te amo e você não ou se ambos nos amamos mas apenas não conseguimos fazer dar certo. A ausência da vírgula é arte? Queria tanto que déssemos certo, meu amor, porque é tão bom te chamar de amor. É tão bom que eu chegue mesmo a sentir que isso que fazemos, que isso é o fogo intenso dos apaixonados, que dispomos nossos corpos a serviço do amor puro. Fundimos nossos corpos, aqui, autômatos atravessados pelo fio muito vivo. Mas no fundo nós sabemos que não é amor. Não é? Eu não sei. É transa. É sexo casual, o que fazemos, ou nem isso. Entre nós, há doença. Hipocondríaco. Não sou! Ainda bem que eu não parei porque agora é como se viesse em mim um espírito do algo, o algo que eu de novo não sei como chamar nem expurgar, mas algo que não me deixa parar. Já é hora, já passou da hora, por favor, me deixe parar. O algo me cutuca e me impele a estar aqui recolhido em minha função torta e exibicionista, como você: criação de um alguém com nome e sobrenome. E é tão bom, porque durante um tempo eu simplesmente parei e deixei de existir. Olha a Clarice aí. Você tem paz, Clarice? Nem pai, nem mãe. Paz, quem é que tem? Quando eu deixo de existir é como se você não existisse também, ou como se eu não fosse útil. Como se você não fosse útil, eu quis dizer. O abusador. Eu morro mas todo o resto continua ressonante. Um som que castra. Estou acordado há muito tempo, assim como você, e já não sei mais o que falo ou penso ou mesmo se faz sentido. Eu disse penso? Talvez faça, talvez. Talvez é uma palavra dúbia. A leitura fica movediça. Na verdade talvez é palavra certa em sua dubiedade. Eu gosto de como soa, de como combina com as outras palavras, vomitadas ou não, talvez por isso eu gosto de enfiá-la onde quer que caiba, ou não. Eu tenho a sensação de que eu mando mas eu sei que é você que manda agora, ao mesmo tempo em que nenhum de nós é nada. Que se você não quiser ou não existir eu não faço nada. Nado de braçadas. Nada na forma ou no tamanho que eu gostaria ou não da forma como eu penso na origem. Na origem. É um ensaio? Na origem nós não existíamos. Na origem eu não sei o que eu sou e nem sei também o que você é. Eu sei o que somos. Sei? Eu quis dizer sinto. Nada. Faz sentido.

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