A Orelha de Van Gogh

Na minha família se dizia que casamento e nascimento dos filhos são as datas mais importantes da vida de uma mulher. Eu demorei um pouco a entender que sou eu quem escolhe quais datas são importantes pra mim, e elas podem ter nada a ver com o fato de ser uma mulher. Mas não é que eu odeie ter formado uma família. É só que talvez eu esperasse por algo mais convencional quando me casei. Meu relacionamento com Armando não foi nada convencional. Até hoje agradeço ter tido coragem de me separar e recomeçar a vida.

Estávamos, como sempre, endividados. Eu estava frustrada e exausta pelo trabalho em casa e no armazém que tínhamos à época. Armando continuava extravagante. Sempre otimista e positivo acerca do presente e do futuro, parecia não enxergar a gravidade da situação. Mamãe comentou comigo certa vez que eu havia me casado com um anjo. Ainda acho que de certa forma ela previu a ausência de libido e o excesso de benevolência do meu marido.

Armando no fundo sempre foi uma criança. E depois uma criança com responsabilidades de adulto. De todos os comportamentos dissociados da realidade natural que meu marido me fazia tolerar, um me irritava especialmente: a generosidade com maus pagadores. Nunca lembrava de cobrar, e quando eu o fazia, ou Moacyr, sob minhas instruções, se compadecia com a desculpa de qualquer um que tivesse a mínima inventividade. Cada história era uma descoberta do mundo.

O problema é que Armando vivia em outro mundo. Um mundo de ilusões. Moacyr aos doze anos de idade já tinha mais juízo que o pai. Por isso mesmo mandei que ficasse de olho. Eu já tinha perdido a paciência para as maluquices de Armando, depois de tantos anos, e ainda sem o sexo pra desopilar. Às vezes ainda acho que eu deveria ter escapulido mais vezes. Sempre fui muito desejada.

Um dos credores que tanto aterrorizavam meu marido, por exemplo, cansou de se aproveitar das indesejáveis visitas que fazia ao armazém para me assediar, se refastelando na paspalhice de Armando. Se eu tivesse cedido, certamente ele teria sido um pouco mais clemente conosco, mas como resisti, não demorou muito e ele nos botou contra a parede.

Armando não chegou a se angustiar, mas passou dias investigando a vida do cretino, decidido que encontraria uma maneira de resolver a situação por definitivo. Tudo o que descobriu, no entanto, era que o traste do credor tinha uma obsessão por Van Gogh. Tudo que eu sabia sobre Van Gogh é que ele só vendeu um único quadro enquanto vivo. Lembro de ter lido algo sobre isso numa revista, enquanto esperava Moacyr sair da sessão com o terapeuta. Fica com o teu olho mais aberto ainda, pedi a Moacyr na ocasião, mas o menino ainda tinha a poesia da criança e se deixava iludir pelos delírios do pai.

Um dia encontrei os dois cochichando cúmplices num canto. Perguntei o que era e disfarçaram, mas eu sabia que tramavam algo. No dia seguinte Armando saiu de casa dizendo que acompanharia Moacyr à escola. Só retornou ao meio-dia. Abriu a porta energicamente e foi direto ao escritório, apertando um embrulho debaixo do braço. Eu, que não dou corda pra louco, não falei nada. Moacyr entrou em casa esbaforido minutos depois perguntando pelo pai. Questionei se sabia onde Armando havia ido depois de deixá-lo na escola, mas já estava batendo a porta da saleta.

Depois do almoço, saíram levando o tal embrulho com eles. Voltaram em menos de uma hora. Vi pela janela frente à pia quando dobraram a esquina, andando vagarosamente pela rua tranquila. Moacyr vinha cabisbaixo e Armando parecia inconformado. Mais perto, parou de repente e falou com o filho. Suas feições eram duras.

Eles conversavam como tomados por um grande acontecimento que parecia, naquele momento, defini-los. Eu, já há muito tomada por reflexões sobre o meu lugar naquele casamento, também definia ali novos passos. Dias depois, ao sairmos de casa, Moacyr me perguntou se eu sabia qual das orelhas Van Gogh havia cortado, se a direita ou a esquerda. Eu disse a ele a única coisa que sabia sobre Van Gogh, e ficamos em silêncio pelo resto da viagem.

No dia em que descobri o que era o Google, Moacyr me ligou para contar que a teoria da automutilação pode ter sido inventada pelo próprio Van Gogh para defender o amigo pintor Gauguin, por quem seria apaixonado, e quem teria desferido o golpe como defesa, após ser ameaçado com uma navalha pelo pintor durante uma briga.

Contou também que em seu autorretrato, é a orelha direita que aparece coberta por um curativo, mas diversos textos afirmam que a orelha decepada é a esquerda. Seu pai gostaria de ter sabido, eu disse, e emudecemos como quem se vê de repente frente uma rede complexa de caminhos que se entrecruzam.

Se a gente observar bem uma orelha, qualquer orelha, seja ela de Van Gogh ou não, disse Moacyr, rompendo enfim o silêncio, verá que seu desenho se assemelha ao de um labirinto. É, eu disse. Parece que nunca sairemos dele.

O texto acima é uma reescrita de A Orelha de Van Gogh, de Moacyr Scliar. A tarefa dessa produção foi, partindo da sequência de fatos estruturadas por Moacyr Scliar no conto original, reproduzido abaixo, recontar a história em 1ª pessoa do ponto de vista de outra personagem: o pai, o credor ou a mãe.

***

A ORELHA DE VAN GOGH, DE MOACYR SCLIAR, COMPANHIA DAS LETRAS, 1991

Estávamos, como de costume, à beira da ruína. Meu pai, dono de um pequeno armazém, devia a um de seus fornecedores importante quantia. E não tinha como pagar.

Mas, se lhe faltava dinheiro, sobrava-lhe imaginação… Era um homem culto, inteligente, além de alegre. Não concluíra os estudos; o destino o confinara no modesto estabelecimento de secos e molhados, onde ele, entre paios e linguiças, resistia bravamente aos embates da existência. Os fregueses gostavam dele, entre outras razões porque vendia fiado e não cobrava nunca. Com os fornecedores, porém, a situação era diferente. Esses enérgicos senhores queriam seu dinheiro. O homem a quem meu pai devia, no momento, era conhecido como um credor particularmente implacável.

Outro se desesperaria. Outro pensaria em fugir, em se suicidar até. Não meu pai. Otimista como sempre, estava certo de que daria um jeito. Esse homem deve ter seu ponto fraco, dizia, e por aí o pegamos. Perguntando daqui e dali, descobriu algo promissor. O credor que na aparência era um homem rude e insensível, tinha uma paixão secreta por Van Gogh. Sua casa estava cheia de reproduções das obras do grande pintor. E tinha assistido pelo menos uma meia dúzia de vezes o filme de Kirk Douglas sobre a trágica vida do artista.

Meu pai retirou na biblioteca um livro sobre Van Gogh e passou o fim de semana mergulhado na leitura. Ao cair da tarde de domingo, a porta de seu quarto se abriu e ele surgiu, triunfante:

– Achei!

Levou-me para um canto – eu, aos doze anos, era seu confidente e cúmplice – e sussurrou, os olhos brilhando:

– A orelha de Van Gogh. A orelha nos salvará.

– O que é que vocês estão cochichando aí – perguntou minha mãe, que tinha escassa tolerância para com o que chamava de maluquices do marido. Nada, nada, respondeu meu pai, e para mim, baixinho, depois te explico.

Depois me explicou. O caso era que o Van Gogh, num acesso de loucura, cortara a orelha e a enviara à sua amada. A partir disso meu pai tinha elaborado um plano: procuraria o credor e diria que recebera como herança de seu bisavô, amante da mulher por quem Van Gogh se apaixonara, a orelha mumificada do pintor. Ofereceria tal relíquia em troca do perdão da dívida e de um crédito adicional.

– Que dizes?

Minha mãe tinha razão: ele vivia em um outro mundo, um mundo de ilusões. Contudo, o fato de a idéia ser absurda não me parecia o maior problema; afinal, a nossa situação era tão difícil que qualquer coisa deveria ser tentada. A questão, contudo, era outra:

– E a orelha?

– A orelha? – olhou-me espantado, como se aquilo não lhe tivesse ocorrido. Sim, eu disse a orelha do Van Gogh, onde é que se arranja essa coisa. Ah, ele disse, quanto a isso não há problema, a gente consegue uma no necrotério. O servente é meu amigo, faz tudo por mim.

No dia seguinte, saiu cedo. Voltou ao meio-dia, radiante, trazendo consigo um embrulho que desenrolou cuidadosamente. Era um frasco com formol, contendo uma coisa escura, de formato indefinido. A orelha de Van Gogh, anunciou, triunfante.

E quem diria que não era? Mas, por via das dúvidas, ele colocou no vidro um rótulo: Van Gogh – orelha!

À tarde, fomos à casa do credor. Esperei fora, enquanto meu pai entrava. Cinco minutos depois voltou, desconcertado, furioso mesmo: o homem não apenas recusara a proposta, como arrebatara o frasco de meu pai e o jogara pela janela.

– Falta de respeito!

Tive de concordar, embora tal desfecho me parecesse até certo ponto inevitável. Fomos caminhando pela rua tranquila, meu pai resmungando sempre: falta de respeito, falta de respeito. De repente parou, olhou-me fixo:

– Era a direita ou a esquerda?

– O quê?

– A orelha que o Van Gogh cortou. Era a direita ou a esquerda?

– Não sei – eu disse, já irritado com aquela história. – Foi você quem leu o livro. Você é quem deve saber.

– Mas não sei – disse ele, desconsolado. – Confesso que não sei.

Ficamos um instante em silêncio. Uma dúvida me assaltou naquele momento, uma dúvida que não ousava formular, porque sabia que a resposta poderia ser o fim da minha infância. Mas:

– E a do vidro? – perguntei. – Era a direita ou a esquerda?

Mirou-me, aparvalhado.

– Sabe que não sei? – murmurou numa voz fraca, rouca. – Não sei.

E prosseguimos, rumo à nossa casa. Se a gente olhar bem uma orelha – qualquer orelha, seja ela de Van Gogh ou não – verá que seu desenho se assemelha ao de um labirinto. Neste labirinto eu estava perdido. E nunca mais sairia dele.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s