NAS RUAS

Sobre A Arte de Pedir, palavras que mudam pessoas e o que aprendi estando fodido financeiramente

Ou, Como me tornei um artista de rua

Por Felipe de Paula Lima, autor da performance #PalavrasSóMudamPessoas

Foto: Beatriz Fortes, do Instagram @textualizei

Se a pessoa, depois de fizer essa série de coisas que eu dou, se ela consegue viver de uma maneira mais livre, usar o corpo de uma maneira mais sensual, se expressar melhor, amar melhor, comer melhor, isso no fundo me interessa muito mais como resultado do que a própria coisa em si que eu proponho a vocês” (Cf. O Mundo de Lygia Clark, 1973, filme dirigido por Eduardo Clark, PLUG Produções)”. #palavrassómudampessoas

Já comentei outras vezes sobre a dificuldade quase paralisante de falar sobre coisas que me tocam de maneira muito profunda. É por essa razão que nunca escrevi uma palavra sequer sobre Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças, o filme de Michel Gondry e Charlie Kaufmann que me fez chorar em posição fetal no fim da adolescência. Ou sobre A Visita Cruel do Tempo, o livro de Jennifer Egan que me fez realizar que a literatura moderna pode ir muito além do que eu imaginava em termos de ousadia.

Em ambos os casos, e em alguns outros, a sensação é a mesma: palavras nunca parecem dar conta de traduzir com dignidade a experiência que essas obras me proporcionaram, e o quão fundo elas foram no meu inconsciente.

Ocorre que com A Arte de Pedir, o aclamado livro em que a irrotulável Amanda Palmer conta sua trajetória na arte e na vida (o que no caso dela e de uma penca de outros artistas vira uma coisa só, trituradas como num liquidificador), existe uma dívida tal que me impede de seguir o mau costume.

Primeiro porque eu não apenas fui tocado por Amanda: ela me atravessou e virou do avesso. Seu impacto em minha vida ordinária foi tamanho, que, ao me dar conta, eu não estava apenas escrevendo sobre seu livro. Eu estava, e estou, vivendo o livro de Amanda, usando uma narrativa própria.

“Não existe caminho certo para se tornar artista de verdade. Você pode achar que vai ganhar legitimidade se fizer um curso de artes, se for publicado, se for contratado por uma gravadora. Mas tudo isso é conversa mole e está só na sua cabeça. Você é artista quando diz que é. E é um bom artista quando faz outra pessoa sentir ou vivenciar algo profundo ou inesperado”. Amanda Palmer, em A Arte de Pedir #palavrassómudampessoas

A sinopse: Amanda sempre quis viver de música, cantando e tocando piano e ukulelê pelo mundo, mas começou a carreira performando como A Noiva de Dois Metros e Meio, branca e estática numa praça em Boston, nos Estados Unidos. Ali, na rua, aprendeu o básico sobre rejeição e conexão com o outro.

Entretanto, foi quando a carreira na música começou a deslanchar, usando a internet como ferramenta e os fãs como suporte, dormindo na casa deles durante as turnês, compartilhando refeições, histórias e experiências com eles (com a mídia, muitas vezes, associando suas práticas pouco ortodoxas a termos díspares como mendigagem e narcisismo absoluto), que Amanda aprofundou seus conhecimentos sobre o ato de confiar, em si e nos outros, e sobre o que ela viria a conceber como A Arte de Pedir.

Devo ter levado algo em torno de sessenta dias ou mais para concluir a leitura. É outro péssimo hábito: ler vários livros ao mesmo tempo, me demorando em todos. Baixei o arquivo em PDF e a cada novo trecho que me fazia tirar os olhos do visor do celular para pensar, escrever, chorar, dar print da tela e publicar nas redes, eu tinha vontade, mas uma vontade louca de sentir na pele as dores e delícias de me atrever a olhar o outro bem dentro dos olhos, me conectar com ele.

Porque essa é, no fundo, a essência do artista: ver, para então compreender (mesmo que singular e parcialmente) e então reverberar. Ou, como Amanda quase didaticamente ensina: coletar, conectar e compartilhar. Aí está do que se trata o fazer artístico.

“Quando o dia chegar/ Quero ser capaz de dizer que eu fiz mais, mais do que rezar/ Fiz mais do que só gastar meu dinheiro/ Só escrever cartas/ Só marchar/ Eu fiz mais do que conversar e dizer a coisa certa, usar a coisa certa”. Corinne Bailey Rae, em Love’s On Its Way, de The Sea. #palavrassómudampessoas

Ao longo da leitura perdi completamente o controle sobre como aquilo me afetava. Antes mesmo de terminar, pedia aos amigos artistas ou aspirantes que lessem o livro. Não bastasse pedir, abusava: TODO ARTISTA PRECISA ler esse livro. E ia além, afirmativo: TODO SER HUMANO PRECISA ler esse livro.

A essa altura eu já havia tomado a decisão de que, acontecesse o que acontecesse, o mercado formal de trabalho não me teria de volta a menos que eu fosse contemplado com uma oportunidade que se encaixasse como luva nas necessidades que até então eu vinha alimentando mal e porcamente (talvez por isso, como animais famintos, elas gritassem cada vez mais alto, implorando com dor, revolta e selvageria por alguma atenção).

A saber: eu queria me envolver emocionalmente com minha atividade de trabalho. Queria inspirar e motivar outras pessoas e queria, desesperadamente, poder dizer que me orgulhava de viver daquilo que eu fazia de melhor: revelar mundos, pensamentos e possibilidades por meio da escrita e da atuação sensível e criativa nos mais diversos terrenos artísticos.

Como artista, não queria me definir, me limitar a uma ou outra atividade. Eu tinha um conjunto de habilidades que poderiam ser usadas das mais diversas formas. E talvez, se desde o início eu tivesse acesso a uma educação que me mostrasse no que eu era bom, e não que me obrigasse a ser bom em coisas que eu não era ou não me interessava, a história poderia ter sido diferente. Acontece com a maioria de nós.

“Onde as necessidades do mundo e os seus talentos se cruzam, aí está sua vocação.” Aristóteles #palavrassómudampessoas

Em maio deixei um emprego ridículo que me tomou três meses de vida, me culpando por um dia ter sonhado que um cargo de gerência num hostel, mais tempo livre pra escrever, seria o bastante pra levar a vida por mais um tempo, me recuperando de um término complicado, de volta ao Rio (meu namorado cafajeste) depois de quase um ano fora. Indo à praia, levando uma vida tranquila e saudável.

A realidade a essa altura era bem diferente, até que uma noite, na Lapa, fui convidado pelo diretor André da Costa Pinto, de Tudo que Deus Criou, para assistir a um dos encontros do CLAVE, seu Curso Livre de Atuação para Vídeo, projeto social que ele tinha iniciado três semanas antes, no Vidigal.

Praticamente me ofereci para ser um observador do restante do processo. Ele não se opôs, e me juntei a uma turma de mais ou menos vinte atores de diversas partes do Brasil, anotando vários dos pensamentos que me ocorriam enquanto os via participarem de exercícios, ensaiarem, gravarem e regravarem cenas, levarem broncas, fazerem festas; vestidos de palhaços, completamente despidos, física e metaforicamente.

Aprendi com alguns deles o quão importante é acreditar e perseguir ferozmente seus objetivos e instintos, lapidar-se, sempre, custe o que custar, tenha uma mesada gorda do papai ou não.

Acabamos o curso no fim de julho e fiquei até meados de outubro num clima depressivo, gastando o tempo em leituras, discos e séries, sem saber direito como aplicar as descobertas que eu vinha fazendo.

Aproveitei a latente necessidade de experimentação para estrear na direção, lapidando a performance de um amigo numa esquete de humor, e adaptei As Nuvens Púrpuras, texto escrito entre 2012/13, para o teatro, com intenção de levá-lo aos palcos em algum momento de 2016.

“Eu lhes imploro, por favor, por favor, por favor, por favor, saia daqui hoje e vá ser a mudança que quer ver no mundo. Vá e tenha coragem, vá e ponha exatamente o que acredita em ação”. Mark Boyle #palavrassómudampessoas

Fiz tudo isso com o livro de Amanda ainda ressoando na minha cabeça, quando um dia, procrastinando no Facebook, me deparei com uma publicação do Festival Panorama, recrutando participantes para o Laboratório de Crítica organizado pelo Departamento de Artes Corporais da UFRJ, em parceria com o programa educativo do festival.

Estudando e experienciando as artes do corpo com uma turma de cerca de vinte alunos, debruçados sobre teóricos de peso e repercutindo a vivência de leituras e espetáculos em conversas longas e profundas, pude entender e expandir ainda mais as (in)definições e possibilidades da arte.

Foi possível entender melhor também a história de Amanda, suas ligações pessoais com sua arte, suas referências, a maneira como criava a própria assinatura enquanto testava seu poder mobilizador enquanto artista.

Como uma grande costura, uma imensa colcha de retalhos, alguma coisa em mim se conectava para ganhar forma própria.

Do lado de fora, tudo que eu havia construído até então, ruía. Uma carreira ascendente no jornalismo e outra no turismo, abandonadas. O primeiro apartamento, com vista linda (alugado e compartilhado sim, mas pago com dinheiro do meu suor e da minha paciência em aturar abusos de toda sorte), o auge da independência e do orgulho da vida adulta, tudo escorrendo pelas mãos. Mal deu tempo de aproveitar.

“As pessoas falam que eu fui corajoso. Mas não foi coragem. Foi DESESPERO. Depois que descobri o que queria fazer, não conseguia mais seguir em outra direção”. Daniel Izzo #palavrassómudampessoas

12276727_1693086210932094_1368354170_n

Passei os últimos meses de 2015 hospedado na casa de amigos, ajudando nas despesas possíveis e em toda e qualquer tarefa, comendo macarrão ao alho e óleo dia sim, outro também, recebendo mesada da mamãe aposentada e precisando da ajuda de praticamente todo mundo à minha volta.

Descobri uma camada nova na palavra vulnerabilidade, e como um legítimo câncer com ascendente em câncer, achei que conhecia todas elas. Descobri coisas sobre amigos próximos, conhecidos e familiares que me deixaram magoado e entristecido, mas também fui tocado pela benevolência e generosidade de alguns deles.

“E deixem-me contar algo aqui hoje: a independência é um mito completo. Não existe. No nível mais básico do básico, somos dependentes das minhocas na terra, somos dependentes das abelhas para polinizar nossa comida. Não somos independentes. E precisamos nos livrar dessa ilusão de independência”. Mark Boyle #palavrassómudampessoas

Como resultado do impacto das palavras e reflexões que eu vinha coletando e conectando ao longo dos últimos meses, e de tudo mais que conspira para que as coisas aconteçam, antes mesmo do fim do Laboratório de Crítica eu já tinha decidido viajar a São Paulo para participar de oficinas e cursos sobre escrita e artes do corpo até o final do ano.

Também queria muito tentar ganhar algum dinheiro fazendo bicos como pernalta. Uma amiga prestes a ter um bebê me emprestaria a perna de pau, que de outro modo ficaria aposentada por um bom tempo. Pensei que seria uma boa forma de exercitar de forma prática tudo o que havia aprendido.

Levei três dias para me equilibrar com confiança em cima das pernas. Já no primeiro fim de semana na capital paulista fiz meu primeiro trabalho, com figurino e maquiagem totalmente emprestados. Semanas antes um conhecido me perguntava se eu não achava arriscado demais depender dos outros num momento tão complexo de crise no País. E ali estavam as pessoas me mostrando o quantos elas podem ser generosas, das mais diversas maneiras. Mesmo em tempos de crise.

“Não estou chamando todo mundo aqui na plateia de prostituto/a por terem ido ao escritório na semana passada por oito horas/dia. Mas não é preciso muito para perceber que fazemos muitas coisas hoje que nem acreditamos mais nelas. E fazemos pelo que inerentemente está validado em notas e moedas, que reduzem tudo da vida a números. Que tipo de vida é esta para reduzir tudo da vida a números?”. Mark Boyle #palavrassómudampessoas

Então, na frente de uma concessionária de carros num sábado pela manhã, acenando para passageiros nos ônibus, recebendo clientes, brincando com as pessoas, inventando sotaques, arriscando movimentos, me permitindo enlouquecer um pouco, sonhar um pouco, viver um pouco, entrar um pouco em contato com o outro, com uma parcela de sua vida e compreensão das coisas, percebi que aquela poderia ser uma vida possível.

No trajeto de ida e volta as pessoas olhavam curiosas pro acessório que eu tinha em mãos. Só aquilo já era capaz de provocar uma reação nelas. No banheiro, me trocando e terminando a maquiagem antes de subir, um cara bateu papo comigo e me desejou bom primeiro dia de trabalho e boa sorte na vida. Um outro, na 25 de Março, dias antes, também puxou papo e gritou “merda!” quando eu estava saindo de uma loja de fantasias.

“Como você pode ser artista e não falar sobre o seu tempo?”. Nina Simone #palavrassómudampessoas

Parecia promissor, mas descobri que os trabalhos na verdade são esporádicos nessa época do ano. Precisava fazer algo para ganhar dinheiro. Além do mais um trabalho formal como perna de pau em eventos etc. para mim seria apenas como o papel seguro e desinteressante, ou o comercial apelativo que o ator faz porque precisa pagar o aluguel e segurar as pontas. Eu, particularmente, queria ir mais fundo. Gosto de frisar porque deve haver gente muito talentosa sendo feliz fazendo apenas isso, e está tudo bem.

“Se a gente cresce com os golpes duros da vida, também podemos crescer com os toques suaves na alma.” Cora Coralina #palavrassómudampessoas

Numa semana de humor instável me irritei e quase sucumbi lendo as notícias sobre confrontos, abusos e injustiças que contaminam o mundo e por consequência as redes sociais. Escrevi um post-desabafo dizendo que estava cansado de textões no Facebook e afirmando que era hora de sair às ruas, em apoio aos estudantes, aos negros sendo mortos por serem negros, aos gays, aos oprimidos sendo massacrados sem clemência por homens cada vez mais gananciosos e ignorantes.

Não bastava sair às ruas com um cartaz em apoio a uma causa ou outra, ou apenas tirar a roupa e chamar alguma atenção. Eu queria beleza, poesia e impacto. Queria algo que falasse comigo e com a minha história, e que fosse capaz de provocar e, por que não, transformar as pessoas com delicadeza e profundidade.

Palavras só mudm pessoas

“Esses encontros profundos – como as trocas intensamente comoventes que tive com pessoas destruídas que pareciam encontrar algum tipo de salvação naquele momento belo e fortuito com uma desconhecida pintada de branco numa esquina – não tem como acontecer na segurança de um palco com cortina. No palco podem acontecer coisas mágicas, mas não isso. Não esse momento de poder dizer, sem o acompanhamento de nenhuma narrativa: obrigada… eu vejo você.” Amanda Palmer, em A Arte de Pedir #palavrassómudampessoas

Fiz uma curadoria rápida de frases e pensamentos que tivessem me ensinado algo, me transformado, gerado algum impacto, mínimo que fosse, sobre a minha vida. Fiz outro post e pedi a amigos que compartilhassem suas palavras de sabedoria, aquelas que haviam tocado a eles. Também selecionei frases de textos próprios, publicados por mim ao longo da carreira que já havia começado sem eu nem mesmo dar conta.

Formatei e imprimi as frases, dobrei-as em quadradinhos, sacudi dentro de uma caixa e as distribuí fantasiado, com uma maquiagem cagada (saudades, Cícero Júlio), em cima das pernas de pau, num domingo de Avenida Paulista aberta apenas para pedestres e ciclistas. Nada de automóveis.

Quem me conhece sabe como sou entusiasta da rua como espaço de encontro e de cultura. É uma das lembranças mais lindas que tenho do Rio assim que cheguei à cidade, no fim de 2011: a Lapa aberta para artistas e gente de todo tipo todas as sextas e sábados a partir das dez da noite, e o Aterro do Flamengo fechado aos domingos fazendo a festa de skatistas, patinadores, bikers, runners e tudo mais.

A paulista aberta é como uma mistura dos dois: qualquer um que passe por ali divide espaço com os mais variados artistas e as mais variadas iniciativas. Você pode ver, por exemplo, adultos e crianças brincando de elástico, bambolê, jogando bola, dando cambalhotas ou simplesmente jogados nas calçadas e no asfalto. Bandas se apresentam, pessoas dançam, desenham, fazem artesanato.

Não há muito o que fazer além de aproveitar todo o espaço da imensa avenida livre, e as pessoas aproveitam, cada uma da própria forma.

“A única coisa que estou pedindo é para as pessoas expandirem o espírito do dar incondicional para a humanidade como um todo. Minha mensagem é muito, muito simples, nada complicada. O que vim fazer aqui hoje foi mostrar a vocês que há várias lentes pelas quais podemos enxergar o mundo. Bem, as lentes que viemos usando pelo período mais longo é uma lente chamada “quanto eu posso ganhar?”. O que tento dizer às pessoas é que, em uma mesa bem na sua frente, há inúmeras lentes. Se você tirar essa lente “quanto eu posso ganhar?” e colocar uma nova, “quanto eu posso dar?”, eu acho…”. Mark Boyle #palavrassómudampessoas

Assim que cheguei ao Masp uma chuva torrencial começou a cair. Foi rápido, mas intenso. A caixa que eu pretendia colocar no asfalto para receber alguma possível contribuição voluntária era de papelão decorado bem fino e não resistiu aos grossos pingos de chuva. Tive a primeira crise ali, antes mesmo de começar. E agora? Como as pessoas vão me dar dinheiro?

Hoje, semanas depois, percebo que questionar isso me fez entender, antes mesmo de subir naquelas pernas, que por mais que aquilo machucasse um bolso vazio e quase sem esperanças, levar aquela performance adiante seria como dizer, e sustentar, que aquilo não era sobre dinheiro. Ou pelo menos que o dinheiro, ou a ausência dele, não poderia jamais corromper a essência do que eu queria levar às ruas.

Eu não estava vencendo os meus medos e colocando-me em equilíbrio acima daquelas pessoas apenas para que elas abrissem a carteira e bancassem as minhas loucuras. Eu estava ali, prestes a estender aquela caixa para um desconhecido, porque, antes de tudo, eu tinha um presente para ele.

Segui adiante. Não restou uma frase sequer. Pais e filhos me abordavam. Riam com surpresa. Não entendiam o que eu estava fazendo. Nem eu. Fiz várias fotos sorrindo para a câmera de um, de outro, e outro. Uma mãe disse à filhinha: “Olha, filha, ele é um artista”. Foi a primeira vez que alguém, espontaneamente, se referiu a mim daquela forma. No fim da tarde, quando me despia do personagem, uma turma de adolescentes que me observava desde o início veio até mim e me ofereceu um pedaço de torta de chocolate, que aceitei com surpresa e alegria.

“Nossas alucinações são alegorias de nossa realidade.” Carlos Drummond de Andrade #palavrassómudampessoas

IMG_20160701_191609

No segundo dia ganhei batatas fritas temperadas com queijo e orégano, uma coca-cola, um chocolate Bis e cerca de R$ 15. Tinha uma caixa nova, de metal, que podia carregar na outra mão mesmo, mesmo com todas essas coisas dentro. Uma senhora na frente do Trianon, depois de me encarar por longos segundos, disse: “A cidade precisa de pessoas como você”. Parei por um instante. São Paulo precisa de mim?, perguntei em silêncio, semiperplexo.

Aquela senhora estava dizendo que as pessoas, correndo apressadas e apertadas em seus ternos e uniformes, muitas vezes ignorando a minha presença extravagante, precisavam de mim, um Negx Malucx contemporâneo de dois metros e trinta, ofertando simples frases, buscando, quase utopicamente, por conexão e impacto?

Eu não sabia o que fazer com aquilo. Ainda não sei o que fazer com muito do que tenho ouvido, do que tenho coletado com essa atividade, intervenção ou sejam lá como queiram chamar a experiência. Mas posso afirmar, categoricamente, que tenho me tornado mais rico, ainda que a caixa continue insistentemente vazia na maioria das vezes.

O mais importante, por agora, é que você saiba que caso esbarre comigo em qualquer parte desse país, com a cara pintada, em cima de uma perna de pau, ofertando uma frase que “pode impactar sua vida ou a vida de alguém que você conhece; às vezes, até a vida de quem você não conhece”, vou ficar feliz caso você aceite o presente.

Toda vez que alguém aceita, mesmo que não queira ou não possa contribuir com dinheiro ou qualquer outra coisa, esse alguém está me dizendo: eu vejo você. E acredito no seu trabalho. Nada poderia me deixar mais entusiasmado para continuar fazendo o que tenho lutado para fazer enquanto estiver vivo: arte.

“Pessoas, muito mais que coisas, devem ser restauradas, revividas, resgatadas e redimidas: jamais jogue alguém fora”. Audrey Hepburn #palavrassómudampessoas

Brinco dizendo que as frases podem ser esquecidas no metrô, no ônibus, na academia: não tem problema, é para todos. Quem aceita a frase pode ler e achar uma bosta, mas o acaso, ou o destino, pode botar alguém ali ocupando aquele banco, aparelho ou armário logo depois de você, alguém que pode não só encontrar esse papelzinho e ler o que há escrito nele, mas alguém que pode gostar do que está escrito nesse papel.

Mais do que isso, alguém que pode ter o dia, a vida, até, insisto, transformada por essas palavras. E você, que cruzou aleatoriamente, ou não, com um personagem estranho no meio da rua, terá sido a ponte que fez com que essas palavras chegassem a quem precisava delas. Simples assim.

“Não subestime o poder de uma frase! Sem pedir nada em troca, eu te ofereço a oportunidade de compartilhar essas palavras e poder impactar a vida de alguém. É uma possibilidade de fazer bem a alguém sem sequer se dar conta. Se palavras me colocaram em cima dessas pernas de pau, elas podem fazer coisas ainda mais maravilhosas e inusitadas na sua vida ou na vida de outras pessoas. Além do mais é um presente, uma oferta de amor. Por que não aceitar?”, insistirei um pouco mais, provavelmente aos berros, caso você resista.

Mas se eu realmente perceber que minha ação não desperta você de maneira alguma, tudo bem. Ou toca ou não toca, como sintetizou Clarice. A rejeição nas ruas é mesmo uma constante, e se há algo que ela ensina rapidamente a qualquer artista é que com humildade e dignidade, indiferença ou ódio te fazem mais forte, mais determinado e mais focado naqueles que inspiram e incentivam seu trabalho.

“Os artistas são as pessoas mais motivadas e corajosas sobre a face da terra. Lidam com mais rejeição num ano do que a maioria das pessoas encara durante toda uma vida. Todos os dias, artistas enfrentam o desafio financeiro de viver um estilo de vida independente, o desrespeito de pessoas que acham que eles deviam ter um emprego sério e o seu próprio medo de nunca mais ter trabalho. Todos os dias, têm de ignorar a possibilidade de que a visão à qual têm dedicado suas vidas seja apenas um sonho.” David Ackert #palavrassómudampessoas

Nos últimos dias recebi um gigantesco NÃO a respeito de um plano importante. Um cachorro mordeu meu tornozelo. Perdi o Bilhete Único. Perdi o celular e com ele preciosas anotações, rascunhos, registros diversos, nudes, contatos. Perdi dinheiro que voou de dentro da minha caixinha, enquanto performava. “Alguém deve estar precisando deles mais do que eu”, me esforcei pra pensar. Deu certo, doeu menos.

Tenho seguido as leituras sobre os corajosos que insistem em fazer arte mesmo em tempos arriscados e descobri que Amanda é só a ponta do iceberg. Há outros autores, outros artistas, outros projetos, outras vidas em lutas semelhantes, buscando apoio no outro, colaborando, compartilhando, sendo nobres e generosos das formas mais práticas e teóricas, objetivas e subjetivas.

Um desses corajosos (ou desesperados), o escritor Alex Castro, vive da contribuição de seus “mecenas”, pessoas que lhe dão dinheiro por meio de depósitos e pagamentos eletrônicos para que ele continue fazendo exatamente o que lhe der na telha, apenas por se sentirem tocadas e por acreditarem, como ele próprio salienta, que mesmo que elas não tenham coragem ou vontade suficiente de levar a vida que Alex e tantos outros artistas levam, alguém precisa fazê-lo. Afinal, nós, artistas, existimos para inspirarmos outras pessoas. Motivarmo-as a serem mais plenas, mais conscientes, mais ativas. Melhores.

Participei, junto de colegas tão curiosos e encantados quanto, de um encontro promovido por Alex, onde exercitamos práticas escutatórias dentro do que ele chama de Oficina de Empatia, um projeto movido a muita paixão e generosidade, da parte de todos os envolvidos. Saí dali com uma certeza gritante: precisamos do outro.

Sim, Mark Boyle! Sim, Amanda! Sim, Jesus! Nem que seja para olhar fundo nos nossos olhos em silêncio absoluto. Nem que seja para escutar nossa história e dilemas. Nem que seja para dar ou não dar um conselho, uma opinião, uma palavra. Precisamos do outro.

Mas Amanda está certa: a maioria das pessoas não sabe ou não consegue pedir ajuda, seja lá o que for que elas precisem. Confundem pedir com coitadismo, ou mendicância. Para esses, é preciso que Amanda explique que “mendigar é uma função de medo e desespero. Quem mendiga exige nossa ajuda; quem pede tem fé na nossa capacidade de amar e no nosso desejo de compartilhar”.

Pode parecer até banal. E é. Mas isso muda a minha relação com a arte, e muda a minha relação com o mundo. Daqui pra frente a única segurança é que as coisas jamais serão as mesmas. Ainda bem.

PS: AS COISAS NÃO PERMANECEM AS MESMAS MESMO. Sai a perna de pau, entra o vestido. Sai a indefinição de “que personagem estou levando às ruas?” e entra a convicção e o carisma de uma mulher com nome de diva. A Whitney nasceu no meio desse processo e hoje faz e acontece levando o #PalavrasSóMudamPessoas a outro nível. Saiba mais sobre a Whitney:

https://limaofelipe.wordpress.com/2016/08/06/cade-o-podcast-que-estava-aqui-parte-ii-anuncios-empolgantes/

https://limaofelipe.wordpress.com/2016/07/01/palavras-so-mudam-pessoas-7-whitney-e-uma-pensadora-contemporanea-nas-ruas-de-sp/

***

Ufa, chegou até aqui? Obrigado! Obrigado, mesmo. Muito obrigado pelo tempo e pelo encorajamento. Nós escritores não seríamos nada sem vocês. Como demonstração de gratidão plena, ofereço mais algumas sementes, a serem plantadas no coração daqueles cujo solo é fértil:

“E as estradas vão todas em direção aos homens”. Antoine de Saint-Exupéry, em O Pequeno Príncipe. #palavrassómudampessoas

“Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o teu coração, porque dele procedem as fontes da vida”. Provérbios 4:23 #palavrassómudampessoas

“O pior erro que você pode cometer é achar que você está vivo quando na verdade você está dormindo na sala de espera da vida.” Guy Forsyth #palavrassómudampessoas

“Ultimamente, o universo não se importa conosco. O tempo não se importa conosco. É por isso que temos que nos importar uns com os outros.” David Levithan #palavrassómudampessoas

“É o espírito que conduz o mundo e não a inteligência.” Antoine de Saint-Exupéry, em O Pequeno Príncipe. #palavrassómudampessoas

“A educação é um processo social, é desenvolvimento. Não é a preparação para a vida, é a própria vida”. John Dewey #palavrassómudampessoas

“A violência, seja qual for a maneira como ela se manifesta, é sempre uma derrota”. Jean-Paul Sartre #palavrassómudampessoas

“Sue Sylvester já dizia que não existe diferença entre um estádio repleto de fãs e um bando de gente bradando ofensas a seu respeito: são apenas pessoas fazendo barulho”. Felipe Lima, em As Nuvens Púrpuras. #palavrassómudampessoas

“É permissível a cada um de nós morrer pela sua fé, mas não matar por ela”. Hermann Hesse #palavrassómudampessoas

“Quem é que quer flores depois de morto?” J. D. Salinger #palavrassómudampessoas

“Ninguém pode fazer com que você se sinta inferior sem a sua permissão”. Autor desconhecido #palavrassómudampessoas

“Qual é a tarefa mais difícil do mundo? Pensar”. Ralph Waldo Emerson #palavrassómudampessoas

“Se você encontrar um caminho sem obstáculos, ele provavelmente não leva a lugar nenhum”. Frank Clark #palavrassómudampessoas

“Quando o sorriso de um amigo lhe fizer feliz, você saberá que tornou-se amigo de verdade”. Autor desconhecido #palavrassómudampessoas

“E se a gente chamasse o beijo gay só de beijo?” Autor desconhecido #palavrassómudampessoas

“O racismo é um sistema de sentidos material e histórico, não é subjetivo. É um modo de organização social em que uma ‘raça’ se sobrepõe a outra, se afirma como paradigma, se naturaliza como regra e oprime as demais. O racismo não é algo subjetivo, individual, que se manifesta entre pessoas. Ele está estruturado e inserido na sociedade, na forma como ela se organiza e se reproduz, no mercado de trabalho, na mídia, entre as vítimas da violência, entre o público do sistema carcerário, entre os pobres em todo o mundo, entre os proprietários e os não proprietários”. Fran Vasconcelos #palavrassómudampessoas

“Uma parte de mim pesa e pondera. Outra delira.” Ferreira Gullar #palavrassómudampessoas

“Se não está todo mundo meio doido, eu estou completamente.” Millôr Fernandes #palavrassómudampessoas

“Sexo e arte são a mesma coisa”. Pablo Picasso #palavrassómudampessoas

Anúncios